O dia 3 de outubro é a festa do Grande Mártir Eustáquio Plácido.
Este santo não é tão amplamente venerado como já foi na Rússia. Houve uma época em que um solene serviço divino era celebrado em uma das catedrais do Kremlin de Moscou no dia de sua festa. Por que, então, São Eustáquio Plácido é conhecido e onde, no mundo moderno, encontramos lembranças inesperadas dele?
Chamado como Paulo
Plácido era um grande comandante militar romano cujo nome infundia terror em seus inimigos. Ele era rico, mas gastava generosamente seus recursos em obras de misericórdia. Amava ajudar o próximo muito mais do que guerrear; contudo, sempre cumpria seu dever militar com o máximo empenho. Sua esposa era igualmente bondosa e generosa, embora ambos adorassem deuses pagãos.
Vendo as profundezas do coração humano, o próprio Senhor escolheu conduzir Plácido à verdade. Certo dia, o comandante saiu para caçar. Enquanto cavalgava seu veloz corcel em perseguição ao maior e mais forte cervo — que se separara da manada —, viu de repente uma cruz radiante entre as galhadas do animal e, nela, Cristo crucificado. Impressionado pelo milagre, o caçador ouviu uma voz que lhe perguntava, tal como outrora perguntara ao Apóstolo Paulo:
“Por que Me persegues? Desejo a tua salvação!”
Depois disso, Plácido abraçou a fé cristã e recebeu o nome de Eustáquio. Sua esposa, que também tivera uma visão extraordinária em sonho, e seus filhos pequenos foram batizados juntamente com ele.
A partir desse momento, os acontecimentos poderiam ter se desenrolado como ocorre em muitas outras vidas de antigos mártires cristãos: perseguição, tortura, exigências para renunciar a Cristo e execução. Mas, antes de tudo isso, a família ainda tinha pela frente uma longa prova de fé…
Sofreu como Job
Logo, calamidades recaíram sobre a casa de Plácido. Seus servos morreram de doença, seu gado pereceu e suas propriedades, deixadas sem vigilância, foram saqueadas. Pouco antes, ele fora um comandante militar rico e distinto; agora, era um indigente. Contudo, não se deixou amargar contra o mundo inteiro nem contra Deus. Em vez disso, ele repetiu humildemente as palavras de Job, que tanto sofreu:
“O Senhor deu, e o Senhor tirou; bendito seja o Nome do Senhor!”
Talvez, como favorito do imperador, ele pudesse ter recuperado sua antiga grandeza. Em vez disso, decidiu mudar-se com a esposa e os filhos para um lugar onde ninguém os conhecesse e viver de forma tranquila e humilde entre pessoas comuns, glorificando a Deus.
O proprietário do navio em que partiram rumo ao Egito era um homem acostumado a obter sempre o que desejava. Desta vez, sentiu-se atraído pela jovem e bela esposa do antigo comandante. O que poderia Eustáquio, sobrecarregado com dois filhos pequenos, fazer contra o dono da embarcação e sua tripulação? Para um homem forte e corajoso, era uma amargura insuportável perceber que não havia conseguido proteger sua amada esposa…
Ainda mais dolorosa foi a constatação de que havia falhado em preservar seus filhos. Para atravessar um rio turbulento, teve de carregar os meninos, um de cada vez, sobre os ombros. Quando um dos filhos já estava em uma das margens e o pai atravessava o rio para buscar o outro, um leão levou o primeiro filho, enquanto um lobo arrebatou o segundo.
Plácido ficou completamente só. O Senhor era seu único apoio e consolo.
O Reencontro
Durante quinze anos, o comandante romano ganhou o pão com o trabalho mais árduo, dedicando à oração as forças e o tempo que lhe restavam. Ele não sabia que seus filhos, resgatados por habitantes locais, estavam sendo criados em aldeias vizinhas, nem que sua esposa, preservada pela providência divina do lascivo armador, vivia discretamente em uma terra distante, entre o trabalho e a oração.
Enquanto isso, o imperador Trajano, compelido a travar muitas guerras — nem sempre com sucesso —, lembrava-se com pesar de seu comandante desaparecido. Dois soldados decidiram procurar seu antigo companheiro de armas, embora não o tenham reconhecido de imediato naquele trabalhador empobrecido. Pouco tempo depois, porém, relatos gloriosos de novas e valentes vitórias conquistadas por Plácido ressoaram novamente por toda a terra.
Logo foi proclamada uma convocação militar em todo o império, e entre os chamados para servir em Roma estavam os filhos de Eustáquio. Aconteceu que os dois jovens se tornaram amigos; e o comandante sentiu por eles um afeto paternal assim que os viu. No entanto, nenhum deles descobriu que eram parentes até chegarem ao vilarejo distante onde a mãe deles vivia.
Ali, finalmente, o nó emaranhado de separações, perdas e sofrimentos foi totalmente desfeito. Assim como o profeta Jonas, aqueles que haviam desaparecido foram encontrados vivos e retornaram. Assim como José e seus irmãos, a família se alegrou ao reencontrar-se.
A família estava reunida
Mas, enquanto todos retornavam juntos a Roma, o imperador Trajano — que havia favorecido Plácido — morreu, e em seu lugar assumiu um novo imperador que odiava os cristãos.
Memória
Em 20 de setembro (3 de outubro, pelo calendário juliano), a Igreja celebra não apenas São Plácido, mas também sua esposa e seus filhos. Juntos, eles aceitaram a morte em vez de obedecer à exigência do governante pagão de que adorassem ídolos. Inicialmente, tentou-se persuadi-los a ceder; depois, feras selvagens foram lançadas contra eles, mas os animais não feriram os servos justos de Deus. Por fim, os mártires foram lançados dentro de um touro de bronze incandescente para serem queimados vivos.
Quando as pessoas chegaram no dia seguinte, esperando encontrar seus restos carbonizados, descobriram os corpos dos falecidos intactos.
Plácido tornou-se um dos primeiros Grandes Mártires do Cristianismo. Embora não haja consenso universal sobre se essa categoria de santidade é atribuída àqueles que pertenciam à nobreza ou àqueles que suportaram tormentos particularmente atrozes, São Eustáquio enquadra-se em ambas as descrições.
Os fiéis frequentemente recorrem a este santo ao orar pela reunificação de famílias e por filhos que se encontram em perigo. Ele é amado e venerado tanto por cristãos ortodoxos quanto por católicos. Os primeiros o honram como um cristão vitorioso — daí as comparações feitas entre ele e o imperador bizantino Constantino e o príncipe russo Vladimir. Este último, aliás, deu a um de seus netos o nome do Grande Mártir.
Os católicos também honram Eustáquio como padroeiro dos caçadores e guardas-florestais. Mais tarde, São Huberto tornou-se mais conhecido nessa função; segundo sua hagiografia, ele também encontrou um cervo com uma cruz entre as galhadas. Esse evento é retratado no rótulo de um popular licor alemão. No entanto, não se deve esquecer que houve outro santo com quem o mesmo ocorrera muitos séculos antes.
Vale ressaltar também que Colombo deu o nome do santo a uma ilha do Caribe.
Por fim, uma das maiores igrejas de Paris — construída à semelhança da famosa Notre-Dame e que serviu, em parte, como sua substituta durante a restauração da catedral — é a Saint-Eustache, a Igreja de São Eustáquio. Relíquias da Grande Mártir encontram-se não apenas na França, mas também na Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém, em igrejas e monastérios gregos — incluindo no Monte Athos — e na Rússia, no Monastério de Solovki e na Catedral da Anunciação do Kremlin de Moscou.
“Que o mal não me separe do amor do Senhor”
A história da família de Plácido assemelha-se a um romance de aventuras. Contudo, os elementos literários na vida do santo não diminuem o significado principal do relato: quaisquer que sejam as desgraças e calamidades que nos sobrevenham, não há calamidade maior do que rejeitar a Deus e perder a esperança em Sua proteção.
Talvez seja por isso que o santo era tão amado desde os tempos da antiga Rússia. Eustáquio, um cristão recém-convertido que compreendia quão difícil seria o caminho à sua frente, pediu apenas uma coisa:
“Ó Senhor, se me é impossível escapar totalmente das tentações, concede-me, então, suportar estas tribulações agora; apenas envia-me o Teu auxílio, para que o mal não me vença e me separe do Teu amor.”
A terra da Rússia, recém-batizada, também tinha muitas provações à sua espera e podia, igualmente, repetir as palavras do Grande Mártir:
“Ajuda-nos, ó Senhor, para que o mal não nos vença e nos separe do Teu amor.”
E, de fato, essas palavras não são menos relevantes para nós hoje.
fonte: https://orthochristian.com/180586.html
tradução de monja Rebeca (Pereira)







