Em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Nestes dias, celebramos a Festa da Exaltação da Cruz. Há uma passagem no Evangelho em que o Senhor nos diz: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos seus amigos” (Jo 15,13). Estas palavras resolvem a antinomia entre o horror da Cruz e a sua glória, entre a morte e a Ressurreição. Não há nada mais glorioso, mais impressionante e maravilhoso do que amar e ser amado. E ser amado por Deus com toda a vida, com toda a morte do Filho Unigênito, e amar uns aos outros ao custo de toda a nossa vida e, se necessário, da nossa morte, é ao mesmo tempo tragédia e vitória — mas, sobretudo, vitória. No Cânone da Liturgia, dizemos: “Santo, santíssimo és Tu, e o Teu Filho Unigênito, e o Teu Espírito Santo! Santo e santíssimo és Tu, porque tanto amaste o Teu mundo que deste o Teu Filho Unigênito, para que aqueles que n’Ele crerem não pereçam, mas tenham a vida eterna; Ele que veio e cumpriu tudo o que estava determinado para o nosso bem e, na noite em que foi traído (não! na noite em que Ele mesmo Se entregou), tomou o pão, partiu-o e deu-o aos Seus discípulos…”
Este é o amor divino. Às vezes, é mais fácil entregar a própria vida do que oferecer à morte a pessoa que se ama acima de tudo; e foi isso que Deus, nosso Pai, fez. Mas isso não diminui o sacrifício daquele que é enviado à morte para a salvação de uma pessoa, ou de todo o mundo.
Assim, quando pensamos na Cruz, devemos pensar neste mistério estranhamente entrelaçado de tragédia e vitória. Porque a morte de Cristo foi a de um inocente, e porque essa morte foi uma entrega de si mesmo num ato de amor, a Cruz — instrumento de morte infame, de morte punitiva a que os criminosos eram condenados — transforma-se em vitória.
É por isso que São Paulo pôde dizer: “Não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim” (Gl 2,20) — o amor divino o preenchia totalmente e, portanto, não havia espaço para qualquer outro pensamento ou sentimento, ou para qualquer atitude em relação a alguém que não fosse o amor; um amor que se doava sem reservas; um amor sacrificial, um amor crucificado, mas um amor que exultava na alegria da vida.
E quando, no Evangelho de hoje, nos é dito: “Negue a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me” (cf. Mc 8,34), não somos chamados a algo sombrio e aterrorizante. Deus nos diz: Abra-se ao amor! Não permaneça prisioneiro do seu próprio egocentrismo. Não seja, nas palavras de São Teófano, o Recluso, como uma apara de madeira que gira em torno do seu próprio vazio. Abra-se! Olhe — há tanto para amar, há tantas pessoas para amar! Existe uma infinidade de maneiras pelas quais o amor pode ser vivenciado, realizado e concretizado… Abra-se e ame, pois este é o caminho da Cruz! Não o caminho percorrido pelos dois ladrões juntamente com Cristo enquanto eram punidos por seus crimes, mas o caminho maravilhoso de doar-se sem reservas, de voltar-se para fora de si mesmo, de existir apenas para os outros, de amar com todo o seu ser de modo a existir apenas em prol do próximo — eis a Cruz e a glória da Cruz.
Assim, quando veneramos a Cruz, quando pensamos na crucificação de Cristo, quando ouvimos o chamado de Cristo para negar a nós mesmos (e essas palavras significam simplesmente: afaste-se de si mesmo! Tome a sua cruz!), somos chamados a nos abrir para a torrente do Amor Divino, que é, ao mesmo tempo, morte para nós mesmos e abertura para Deus e para todos.
No início do Evangelho de São João, é-nos dito: “E o Verbo estava com Deus”. No grego, a expressão indica um movimento “em direção a Deus”. O Verbo, o Filho, não tinha outro amor, outro pensamento ou outro movimento senão em direção ao Amado, entregando-se Àquele que a Si mesmo Se entregou perfeitamente a Ele. Aprendamos a glória do Amor crucificado, deste Amor sacrificial que é — nas palavras do Antigo Testamento — mais forte do que a morte, mais forte do que o inferno, mais forte do que todas as coisas, porque é a Vida Divina que nos conquista e que, através de nós, se derrama sobre todos aqueles que precisam ser amados para chegar à Vida, para crer no Amor, para se tornarem filhos do Amor, filhos da Luz, e herdarem a Vida eterna. Amém.
Metropolita Anthony (Bloom) de Sourozh
tradução de monja Rebeca (Pereira)






