POR QUE O SENHOR DEIXOU PARA O HOMEM O LIVRO DO APOCALIPSE?
Na última vez, dissemos que, com a ajuda de Deus, falaríamos sobre o livro do Apocalipse do santo e glorioso Apóstolo e Evangelista João, o Teólogo. Assumimos uma tarefa muito difícil. Ela exige muita atenção e muita oração para que o Senhor nos preserve e não permita que digamos algo errôneo.
Não lemos o Apocalipse para avaliar as circunstâncias dos nossos tempos, nem para saber sobre eventos futuros ou descobrir quantos anos nos restam.
O Apocalipse de São João, o Teólogo, tem o propósito específico de nos ajudar a nos aproximar de Deus e de nos dar uma esperança bendita e a convicção de que Deus prevalecerá no final, e de que as pessoas que têm esperança e paciência estarão com Deus eternamente.
Vamos começar pelo primeiro capítulo. O Apocalipse foi escrito há cerca de dois mil anos. É o último livro do Novo Testamento, sendo o último a ser escrito cronologicamente. Vejamos o que o Apóstolo João diz no primeiro versículo:
A Revelação de Jesus Cristo, que Deus Lhe deu para mostrar aos Seus servos as coisas que em breve devem acontecer; e Ele a enviou e a manifestou por meio de Seu anjo ao Seu servo João (Ap 1,1).
Este livro, como diz o texto, contém a revelação que Deus deu a Jesus Cristo para mostrar aos Seus servos o que acontecerá em breve. A palavra “revelação” significa que havia algo desconhecido, oculto, sob um véu, e que agora está sendo revelado. Assim, Deus nos dá a Revelação de Jesus Cristo.
Cristo diz no Evangelho que ninguém sabe quando virá o fim do mundo. Ninguém, nem mesmo o Filho. Nem os anjos, nem o Filho. E aqui estamos falando da revelação dada por Deus a Jesus Cristo. Deus deu essa revelação a Jesus Cristo não porque haja algo que Ele desconheça ou porque o Pai esconda algo do Filho. Em outra parte das Sagradas Escrituras, diz-se que tudo o que o Pai tem, Ele deu ao Filho. O Filho sabe de tudo. Não há nada que Lhe seja desconhecido. Mas devemos saber que as duas naturezas de Cristo são frequentemente manifestadas nas Sagradas Escrituras. Cristo age muitas vezes como Deus e, outras vezes, como Homem. Em Sua natureza humana, Cristo sentiu fome e sede, cansou-se, dormiu e morreu, pois Ele também era Homem. E, como Deus, ressuscitou a Si mesmo e a outros, realizou milagres e manifestou Seu poder sobrenatural. Como Homem, Ele perguntou: “Onde vocês puseram Lázaro?” Não porque não soubesse, mas porque Sua natureza humana estava manifestando a Sua própria natureza. Cristo é perfeito Homem e perfeito Deus.
A Revelação de Jesus Cristo, que Deus Lhe deu, significa que Cristo recebeu esse conhecimento como Homem, pois Suas duas naturezas são inseparáveis n’Ele. Cristo é o Deus-Homem. A natureza humana de Cristo recebeu essa revelação de Sua Divindade e revela aos Seus servos tudo o que leremos. A revelação é dada aos servos de Deus.
Na última vez, dissemos que muitos falsos profetas surgiram em nossos dias. Já existem muitos deles, e haverá ainda mais à medida que nos aproximamos do fim. E os falsos profetas são um dos sinais dos últimos tempos. Embora não sejam profetas, parecerão sê-lo. Mas apenas um servo de Deus pode ser profeta — ninguém mais. Um servo não é um homem cativo, escravizado, dependente ou subordinado, privado de sua liberdade. Ele é um homem — um homem santo e puro que se libertou das paixões e dos pecados; e, em seu corpo e alma, em sua mente e coração, reinam a presença e a graça do Espírito Santo. Cristo revela os Seus mistérios apenas aos Seus servos. A ninguém mais. Somente o povo de Deus, os santos, podem receber revelações de Deus, e somente eles podem interpretá-las, pois uma revelação — palavras de Deus — provém de Deus, do Espírito Santo. Elas são registradas e transmitidas oralmente pelos santos, e apenas pessoas santas podem explicá-las corretamente; é por isso que existem tantas heresias.
Pessoas passionais, movidas pelo egoísmo, pela obstinação e por um espírito rebelde, querem interpretar as Sagradas Escrituras. Por não possuírem o Espírito Santo de Deus, nem pureza de mente e coração, e por não serem humildes, elas querem interpretá-las à sua própria maneira. E, muitas vezes, ouvem-se coisas tragicômicas. Pode-se perguntar: “De onde alguém tira tais pensamentos? Será que não percebe que isso é um absurdo?” No entanto, o egoísmo cega-lhe a mente, e ele diz coisas assim sem se dar conta.
Há também pessoas de destaque na vida pública que leem com interesse os chamados “livros proféticos”. O que está acontecendo aqui? Elas simplesmente compartilham o mesmo espírito dos autores desses livros e ideias. Possuem um espírito de egoísmo, orgulho e vanglória. Por isso, Deus não pode iluminá-las, e elas se tornam vítimas de pessoas como esses autores. Mas, quanto ao homem humilde e de coração puro, que põe à prova e busca a vontade de Deus, Deus o ilumina e o guia pela vida. Esse homem compreende o que é verdadeiro e o que é falso. E, mesmo que se confunda em algo, o Senhor não o abandonará, ao ver a sua boa intenção.
Conheci pessoas assim — inteligentes, com status social e instruídas —, mas que acreditavam em coisas insensatas e vãs; isso me deixava admirado. E, ao tentar compreender a razão, percebia-se que estavam contaminadas pelo espírito de orgulho.
Conheci um homem que acreditava constantemente em falsas profecias. Há muitos livros desse tipo sendo distribuídos atualmente. Certa vez, ele me disse: “Sabe, eu poderia ter me tornado uma figura excepcional na Igreja, como o Padre Paisios ou o Ancião Porfírio, se tivesse ido viver entre monges, no ambiente eclesiástico, junto ao clero”. Ele passou a acreditar em todas essas falsas profecias porque o espírito de orgulho e arrogância habitava nele, tornando-o ingênuo o suficiente para acreditar em tais coisas.
Muitas vezes, falsas profecias são difundidas por pessoas com transtornos mentais que, elas mesmas, passam a acreditar que são profetas. Como você chega ao ponto de começar a acreditar nas profecias deles? Isso significa que algo está dando errado.
Lembro-me de um iogue, um professor. As pessoas acreditavam que ele era Deus. Ele tinha o hábito de colecionar Rolls-Royces. Havia quarenta ou cinquenta carros diferentes em sua garagem. Pedi a um jovem que me mostrasse uma foto desse guru a quem eles — pessoas instruídas, não simplórios — consideravam Deus. Trouxeram uma foto e o que vi? Um homem jovem, de quarenta e dois anos, bem-sucedido e próspero. Seria esse realmente o Deus que criou os céus e a terra? O Deus de todo o mundo? O que se pode dizer diante disso? Senhor, tem piedade! Não se sabe o que dizer. Esse é o “Deus” — num Rolls-Royce, com contas bancárias e jatos particulares para viagens? Mas as pessoas acreditavam nele. Por causa do orgulho, da arrogância e da vaidade, o Senhor permitiu que suas mentes propagassem falsas profecias ou acreditassem nelas. É a era do *prelest* e da ilusão — o que dizer? Você diz àqueles que vêm à Igreja — pessoas virtuosas e experientes — que tudo isso é algo ruim.
Você se lembra de quando, aqui em Limassol, em Trakhoni, o Mickey Mouse apareceu na parede? Todos foram ver. Eu não vi nada. Pessoas mais sérias e santas também vieram e olharam. Todo o povo de Deus disse, em uníssono, que aquilo não era sério, que não vinha de Deus. O Sínodo se reuniu, discutiu o assunto e declarou que não provinha de Deus; que não se devia acreditar nem dar atenção àquilo. Era um engano e um truque, talvez até algo satânico. No entanto, ainda hoje há pessoas que querem estar na Igreja, que comungam, mas acreditam nisso. Pessoas experientes, de vida santa, lhe disseram a verdade, e você continua acreditando naquilo que foi desenhado na parede.
Se você começar a conhecer melhor essas pessoas, perceberá que elas não cometeram apenas um erro. Todos nós cometemos erros. Mas persistir obstinadamente no erro significa que sua mente está em *prelest*; você gosta dessa ilusão, encontra consolo nesse espírito que, segundo nosso Ancião de bendita memória, é surdo e mudo. Por mais que se fale com um homem seduzido, ele não ouve. Não importa o que se diga, ele não recua de sua própria opinião. Você pode realizar milagres por ele, ressuscitar mortos, e ele permanecerá onde estava. Esse é o sinal de um homem enganado: nada consegue afastá-lo de seus pensamentos. Ele não diz: “Sabe, posso cometer erros. Eu acredito, mas, sendo humano, também posso estar iludido”. Ele não questiona se suas crenças estão corretas. Os sinais de um homem enganado são a vanglória e a obstinação: “Eu sei, eu acredito piamente, eu estudei e compreendi, e é assim que eu entendo” — tudo isso gira em torno do “eu”.
Recentemente, houve um homem que realizou palestras em Limassol. Ele é médico e conta histórias interessantes; é eloquente e culto. Veio me procurar para poder, depois, contar aos outros sobre isso. Falou, falou e falou — sempre sobre si mesmo. Perguntei se ele frequentava a igreja, e ele disse que é adventista do sétimo dia. É uma heresia protestante. Ele falava muito, e eu o interrompi: “Perdoe-me, mas você já está falando há quase uma hora, e o tempo todo sobre si mesmo: o que faz, sobre o que fala, no que acredita. Você já disse a palavra ‘eu’ quinhentas vezes”. O que mais há a dizer aqui? É assim que as pessoas iludidas se revelam.
Há um grande exemplo na vida de São Simeão, o Stilita. Quando ele subiu na coluna e realizou esse feito até então inédito, os padres vinham até ele e diziam: “O que você está fazendo aí? É a primeira vez que vemos algo assim. Que tipo de ascetismo é esse — ficar sentado numa coluna?” Essa coluna não era como um poste de telefone, mas algo semelhante a um minarete.
Os padres que viviam nas redondezas não sabiam dessa prática ascética e decidiram pôr à prova São Simeão, para descobrir se ela vinha de Deus ou se era algum tipo de ilusão. Decidiram ir até ele e dizer: “Pai, isso está errado. Você subiu aí nessa coluna por orgulho, por egoísmo. Desça e não faça mais isso”. Se ele obedecesse e descesse, então seria um homem humilde, vivendo para Deus, e poderia continuar. Mas se não descesse e começasse a explicar: “Fiz isso porque foi o que decidi para mim mesmo”, então o trariam para baixo à força — pois estaria iludido.
Foram até a coluna dele e começaram a gritar que o que ele fazia não era bom. São Simeão respondeu-lhes: “Perdoem-me, padres. Vou descer, já que vocês acham que isso é ruim e que serve de tentação para os outros. Se vocês não aprovam, terei prazer em descer”. E ele imediatamente desceu. Então, os padres lhe disseram: “Volte a subir. Seus esforços são agradáveis a Deus”.
É isso que distingue um homem iludido de um homem de Deus. O homem de Deus é reconhecido por sua humildade. Ele está pronto para deixar de lado seus pensamentos, decisões e julgamentos, e sempre pondera sobre suas próprias razões: “Eu achava que isso era o certo. Mas sou um homem e posso errar; não sei”. Ele consulta e ouve os outros. O egoísta orgulhoso, iludido e vaidoso não ouve ninguém. Ele disse algo e pronto — nunca duvida disso, nunca diz: “Será que eu estava errado?”. Esses são extremos, é claro. Mas não pense que o homem iludido cai do céu ou que se torna assim da noite para o dia. O homem cai na ilusão porque, desde a infância, aprende gradualmente a agir de forma egoísta; aprende a vaidade e a arrogância. Um homem orgulhoso, que só ouve a si mesmo e a mais ninguém, torna-se um animal. Se alguém ousa discutir com ele ou lhe dizer: “Sabe, você estava errado; você cometeu um erro”, ele perde a cabeça. E, aos poucos, cai no delírio.
Metropolita Atanasios Limassol
tradução de monja Rebeca (Pereira)







