Os Apóstolos, os Santos Padres e, depois deles, toda a Tradição Litúrgica da Igreja glorificam a Cruz com as expressões mais sublimes. O santo apóstolo Paulo “gaba-se” da Cruz. Ao louvar a Cruz, Santo Efrém, o Sírio, profere uma longa lista da qual citaremos apenas um fragmento: “A Cruz é a ressurreição dos mortos. A Cruz é a esperança dos cristãos. A Cruz é o bordão dos coxos. A Cruz é o consolo dos pobres. A Cruz é o freio para os ricos, a derrubada dos soberbos. A Cruz é o monumento da vitória sobre os demônios, a guardiã dos jovens. A Cruz é a esperança dos desesperados, o leme daqueles que estão no mar. A Cruz é o porto para os açoitados pela tempestade, a muralha para os cercados por inimigos. A Cruz é o pai dos órfãos, o conselheiro dos justos. A Cruz é o consolo dos aflitos, a protetora das crianças, a glória dos homens, a coroa dos anciãos”. São Teodoro Studita repete, após ele: “A Cruz é uma riqueza mais preciosa do que qualquer outra riqueza. A Cruz é o refúgio mais seguro para os cristãos. A Cruz é um jugo muito leve, colocado sobre os ombros dos discípulos de Cristo. A Cruz é o consolo mais doce para as almas atribuladas. A Cruz é a pacificadora e mediadora entre o céu e a terra. Pela Cruz, a morte é morta e Adão é restituído à vida”.

Desde os tempos de Caim, as pessoas inventaram muitas maneiras de privar o próximo da vida; a tecnologia da execução desenvolve-se constantemente e alcançou grande sofisticação. No mundo antigo (assim como mais tarde, na Idade Média), as execuções eram um espetáculo público; possuíam sua própria encenação e teatralidade. Uma pessoa era levada à morte diante de multidões que observavam boquiabertas — principalmente para incutir o temor necessário naqueles a quem a execução se destinava. Contudo, aquele que seria executado dispunha, nesse momento, de uma espécie de tribunal: podia dizer algo para que as pessoas se lembrassem, lançar uma última censura aos carrascos ou proclamar a retidão de suas ações. Ao subir ao cadafalso, Thomas Moore exclamou: “Morro como servo fiel do rei, mas, acima de tudo, de Deus!” Essas palavras são de um homem que colocou seu dever para com Deus acima da vontade do monarca, e elas vêm sendo repetidas ao longo das gerações.

Moore foi decapitado; uma lâmina pesada corta a pele, as vértebras cervicais, os nervos, os músculos e as artérias, de modo que a cabeça rola para dentro de um cesto e o condenado não tem tempo de sentir dor alguma.

Um homem corajoso, plenamente convicto de sua inocência, pode aceitar tal morte com grande serenidade, como fez Thomas Moore. Nesse caso, a morte se transforma em um triunfo, uma demonstração de coragem e firmeza inabalável que inevitavelmente causa impacto nas pessoas.

Os romanos, por outro lado, não queriam de forma alguma que a execução de seus opositores se convertesse em uma demonstração inspiradora de firmeza heroica diante da morte. Assim como outros impérios que os antecederam — o assírio, o babilônico, o persa e o macedônio —, eles sabiam como privar a morte de qualquer traço de “beleza”, heroísmo ou romantismo. Quem desafiasse a autoridade deles deveria morrer não apenas de forma torturante, mas também ignominiosa; o condenado não podia conservar sequer uma gota de força ou de dignidade. A única impressão que ele deveria causar nas pessoas era a de medo e repulsa.

Por isso, o homem era primeiramente açoitado com chicotes especiais, que continham esferas de chumbo e lascas de osso afiadas costuradas ao couro, capazes de retalhar sua carne; em seguida, era forçado a carregar uma cruz pesada sobre os ombros, após o que grandes pregos eram cravados em suas mãos e pés… Isso, certamente, não deixava espaço para discursos inspiradores ou belas lendas.

Aquilo foi uma derrota extrema e uma desonra. Depois de tudo isso, o melhor a fazer em relação ao executado é esquecê-lo, tal como se esquece algo repugnante e vergonhoso. E agora, esse instrumento de morte abominável torna-se um instrumento de glória e vitória; um instrumento de torturas horríveis transforma-se em um estandarte de esperança. Como?

Deus o transforma em um instrumento de salvação. Deus fez-se homem na pessoa de nosso Senhor Jesus Cristo — um homem em tudo semelhante a nós, exceto pelo pecado. E esse Homem aceita a morte — uma morte abominável e execrável na Cruz — em favor do ser humano e para a nossa salvação. Ele conquista a vitória e estabelece o Reino, mas essa não é, de forma alguma, a vitória ou o reino que as pessoas geralmente desejam, nem aquele que os Seus contemporâneos queriam.

Neste mundo, os vitoriosos são aqueles que cometem violência — aqueles que podem ordenar aos seus legionários que despedacem, empalem ou crucifiquem quem bem entenderem. São aqueles que possuem o maior número de legionários.

Cristo triunfa ao suportar a violência contra Si. No mundo, os conquistadores são aqueles que trazem a morte com suas espadas e lanças afiadas; Cristo triunfa ao aceitar a morte. A Sexta-Feira Santa, o dia em que as pessoas mataram Deus, torna-se o dia em que Deus salvou o mundo.

O reino deste mundo — e os romanos compreendiam isso perfeitamente — sustenta-se pela força. Seus governantes impõem a submissão às pessoas por meio do medo da dor e da morte. Cristo estabelece o Reino que se sustenta na confiança e no amor.

Ele reúne os Seus súditos não pela coerção, mas pelo amor e pela fé; não por meio de ameaças, mas de exortações; apresentando-Se não como um conquistador temível de espada em punho, mas como Aquele que humildemente aceita a morte pelos outros.

E esse Reino triunfa: três séculos se passam, e o próprio imperador romano curva-se diante da Cruz. E ele triunfa por toda a eternidade — quando, nas palavras de Santo Efrém, o Sírio: “A Cruz aparece no céu com todas as hostes angélicas, iluminando a terra inteira de ponta a ponta, mais brilhante que o sol, e proclamando a vinda de Cristo, o Mestre”. Ao glorificar a Cruz, proclamamos nossa fé naquilo que finalmente vencerá não pela força, que amedronta e coage, mas pelo amor, que suporta a crucificação. E nos colocamos ao lado desse amor em um mundo governado pela força, pois, como membros da Igreja de Cristo, pertencemos ao mundo vindouro, onde não haverá mais violência, mas apenas amor.


Sergei Khudiev
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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