Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para que possais permanecer firmes contra as ciladas do diabo (Efésios 6:11).
Redescobri *Cartas de um Diabo a seu Aprendiz* (1942) e o ensaio que lhe serve de sequência, *Um Brinde de Screwtape* (1958), de C.S. Lewis.
Li essas obras pela primeira vez há muito tempo, na minha juventude, e as achei interessantes e instrutivas. Nunca imaginei que voltaria a elas, mas o fiz a pedido dos meus paroquianos. Ouvir o conteúdo novamente foi como vivenciá-lo pela primeira vez!
É uma obra filosófica vibrante que — de forma vívida, espirituosa e ensaística — retrata dois reinos, dois caminhos e duas visões de fé e amor, entre os quais cada pessoa deve escolher durante sua vida terrena.
Os Nomes dos Personagens
Desta vez, não pude deixar de notar os nomes originais dos personagens e suas traduções para o russo. No original em inglês, o livro intitula-se *The Screwtape Letters*. O nome Screwtape é uma invenção linguística brilhante de Lewis: combina “screw” (que significa parafuso ou apertar, além de ser uma gíria para carcereiro) e “tape” (referindo-se a *red tape*, ou seja, as amarras da burocracia). Juntos, evocam uma “fita que se retorce” — a imagem de alguém que “aperta o parafuso”, “aperta o laço”, oprime a alma e a sufoca. Na tradução russa, o nome “Balamut” acabou prevalecendo — derivado do verbo *balamutit’*, que significa turvar as águas, confundir ou semear a discórdia. Embora os demônios certamente façam isso, a profundidade original do nome perde-se claramente. O nome de seu sobrinho, Wormwood, foi transformado pelo tradutor russo em “Gnusik” (de *gnusnost’*, que significa baixeza ou vileza); embora sugira maldade, perde-se completamente o temível símbolo bíblico da estrela amarga “Absinto” (*Wormwood*) caindo dos céus (cf. Apocalipse 8:11).
Essa nuance de tradução não é mero preciosismo filológico. É um lembrete de que qualquer leitura de uma obra literária já constitui uma interpretação; e, no caso de literatura estrangeira, isso ocorre em dobro. Devemos sempre distinguir e levar em consideração tanto o texto original quanto a tradução, evitando julgamentos precipitados sobre o conteúdo do livro.
No caso de *The Screwtape Letters*, as versões russas dos nomes dos dois demônios, embora não reproduzam o sentido literal do original, soam completamente naturais e não prejudicam o contexto geral da narrativa.
Contexto do Livro
*The Screwtape Letters* foi escrito durante um período difícil para o Reino Unido e para o mundo inteiro: os anos da Segunda Guerra Mundial. Em 1941, Lewis — membro do corpo docente e tutor de Literatura Inglesa no Magdalen College, da Universidade de Oxford, além de um pregador brilhante — foi convidado a fazer transmissões de rádio e a falar aos soldados britânicos. Foi durante essas participações que ele concebeu a ideia de falar sobre a fé de uma maneira incomum, “invertida” — sob a perspectiva de um demônio tentador.
*Cartas de um Diabo a seu Aprendiz* foi publicado originalmente em fascículos semanais no *The Guardian*, um jornal da Igreja Anglicana, entre maio e novembro de 1941. Mais tarde, o autor deu ao remetente o nome de Screwtape e, em 1942, as cartas individuais foram reunidas em um livro. Curiosamente, o próprio Lewis admitiu que escrever esse livro não foi algo prazeroso: “Nunca escrevi com menos satisfação”. Ele disse:
“Mas, embora fosse fácil forçar a mente a adotar aquela atitude diabólica, não era algo divertido — ou, pelo menos, não por muito tempo. A tensão provocava uma espécie de cãibra espiritual. O mundo no qual eu precisava me projetar enquanto falava por meio de Screwtape era feito apenas de poeira, areia, sede e irritação. Qualquer vestígio de beleza, frescor ou cordialidade tinha de ser excluído.”1 Dezesseis anos depois, em 1958, Lewis escreveu uma continuação — um conto intitulado *Fitafuso Propõe um Brinde* (Screwtape Proposes a Toast), publicado pela primeira vez em 1959. Nele, Screwtape profere um discurso em um banquete de formatura para demônios tentadores, criticando as tendências contemporâneas da educação e da sociedade britânicas.
Conselhos Maliciosos de um Velho Diabo
Dá a impressão de que *Cartas de um Diabo a seu Aprendiz* pareceria mais completo e acabado se incluísse também as respostas de Vermebile. Ao que parece, ao deixar coisas por dizer, Lewis pretendia incentivar os leitores a pensar e a preencher as lacunas por conta própria. E ele conseguiu.
Diante de nós, desenrola-se uma vasta gama de tentações demoníacas, revelando a sua própria essência. Todas essas seduções apelam diretamente para a vaidade e o orgulho humanos.
O livro é estruturado como uma série de conselhos maliciosos e invertidos:
“…Tudo está de cabeça para baixo, a ponto de o próprio Deus ser chamado de Inimigo (com ‘I’ maiúsculo!).”2 Os demônios tentam as pessoas utilizando imagens sensoriais, medos, dúvidas e ideias intelectuais. Eles as implantam diretamente como pensamentos íntimos ou indiretamente, por meio de pessoas que se deixam dominar por eles.
No mundo moderno, os canais de tentação mais poderosos são a mídia, a história, as demais ciências humanas e a cultura de massa. Podemos acrescentar também a internet, que não existia na época de Lewis.
São eles que substituem conceitos e percepções originais e justos por outros falsos — justificando e exaltando a mentira e o pecado, ao mesmo tempo que condenam e difamam a verdade e a retidão. Eles tentam confundir a humanidade e afastá-la o máximo possível de perguntas e respostas simples, bem como de uma compreensão clara do bem e do mal.
Os cristãos devem permanecer vigilantes quanto às ameaças modernas e saber como resistir a elas. O Apóstolo Pedro nos adverte: Sede sóbrios, vigiai; porque o vosso adversário, o diabo, anda em derredor, bramando como leão, buscando a quem possa tragar (1 Pe 5,8).
Dois Projetos: o de Deus e o Demoníaco
Cada uma das cartas de Screwtape é dedicada a paixões e estágios específicos da vida espiritual, concentrando-se em suas armadilhas sob a perspectiva de um tentador.
Do lado do demônio estão o engano, as falsas esperanças e promessas, a antecipação excessiva de prazeres por parte da pessoa, os estereótipos culturais e as tendências.
Do lado humano estão a ordem natural original das coisas, o bom senso e, acima de tudo, a graça de Deus. Lewis enfatiza que os demônios agem não apenas contra Deus e a humanidade, mas contra a própria natureza — a essência mesma do homem e de toda a criação, trazida à existência pelo amoroso Pai Celestial.
Deus cria e une para dar vida, preservar e curar. Ele, toda a Sua criação e o homem constituem uma unidade viva na diversidade. Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o Seu Filho Unigênito, para que todo aquele que n´Ele crê não pereça, mas tenha a vida eterna (Jo 3,16). Este é o plano do Criador: não destruir, mas salvar; não dividir, mas unir a Si mesmo por meio da fé.
Os demônios, ao contrário, tentam dividir a todos e a tudo a fim de destruir. Primeiro, separaram-nos de Deus, lançando-nos na perdição — uma existência eterna, desprovida de graça. O profeta Isaías, ao falar sobre a queda de Lúcifer, filho da alva (Is 14,12), colocou palavras de soberba na boca do espírito caído: Subirei ao céu, acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono; e no monte da congregação me assentarei, nas extremidades do norte; subirei acima das mais altas nuvens; serei semelhante ao Altíssimo (Is 14,13–14). E, logo em seguida, vem o veredito divino: Contudo, serás precipitado no inferno, nas profundezas do abismo (Is 14,15). O orgulho — o desejo de exaltar a si mesmo acima de Deus — é a raiz da apostasia. Então, por meio de tentações, os demônios separaram e continuam a separar as pessoas de Deus, combatendo a Sua Providência salvadora. Eles dividem para conquistar e conduzem à morte. Quanto a Deus, Ele nos une para salvar e ressuscitar.
Por meio de Screwtape, o próprio Lewis expõe essa distinção com absoluta clareza:
“Nós queremos gado que possa, por fim, tornar-se alimento; Ele quer servos que possam, por fim, tornar-se filhos.”3 Ou, em outra passagem:
“Faça o que fizer, haverá certa benevolência, bem como certa malícia, na alma do seu paciente. O segredo é direcionar a malícia para os vizinhos imediatos, com quem ele convive diariamente, e projetar sua benevolência para uma periferia distante…”4 Screwtape também instrui seu sobrinho:
“Uma vez que você tenha feito do mundo um fim e da fé um meio, terá quase conquistado o seu homem; e pouco importa que tipo de objetivo mundano ele esteja perseguindo. Desde que reuniões, panfletos, políticas, movimentos, causas e cruzadas importem mais para ele do que orações, sacramentos e caridade, ele é nosso.”5 O apóstolo Paulo nos recorda a verdadeira natureza dessa luta: Pois não lutamos contra carne e sangue, mas contra principados, contra potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal nas regiões celestiais (Ef 6,12). Não são as pessoas que são nossas inimigas, mas as forças das trevas por trás de suas ilusões e pecados. Portanto, nossas armas devem ser espirituais. Contudo, essa espécie não sai senão pela oração e pelo jejum (Mt 17,21) — somente pela graça de Deus, concedida a nós nos Sacramentos da Igreja.
Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes (Tg 4,6). Nessas breves palavras do apóstolo Tiago reside a chave para compreender todo o drama: o orgulho do diabo levou à sua queda, e esse mesmo orgulho é a principal arma que ele utiliza para enredar as almas humanas. O apóstolo então nos apresenta uma promessa e uma ordem: Sujeitai-vos, pois, a Deus. Resisti ao diabo, e ele fugirá de vós (Tg 4,7).
Equívocos
A representação das tentações perpetradas pelos inimigos da humanidade no livro de Lewis não suscita questionamentos para o leitor cristão. No entanto, certos aspectos da sociedade demoníaca parecem controversos e são, muito provavelmente, recursos ficcionais a serviço da trama literária.
Isso diz respeito, principalmente, à ideia implícita no livro sobre o nascimento dos demônios, seus laços de parentesco e suas variadas idades. Embora São Máximo, o Confessor (século VII), tenha sustentado uma visão controversa sobre a possibilidade de um certo nascimento espiritual entre os anjos após a criação,6 nenhum teólogo jamais sugeriu a existência de nascimentos no reino demoníaco. Isso contradiz a própria natureza de sua existência, que é inteiramente voltada para a divisão, a destruição, o assassinato e a ruína. Aqueles que se destroem espiritualmente e se empenham em matar outros espiritualmente são incapazes de gerar, em sentido espiritual, sequer seres da sua própria espécie. Na teologia cristã, é amplamente aceito que todos os anjos foram originalmente criados por Deus em um número desconhecido e imenso, condizente com o Criador e Provedor. Posteriormente, por orgulho, uma parte dos anjos, liderada pelo diabo, afastou-se de Deus (proporção que varia de um centésimo a um terço do total, segundo diversas tradições). Não há procriação nem entre anjos nem entre demônios. O número total deles permanece inalterado desde os momentos da criação e da queda. Há exatamente o mesmo número de anjos e demônios hoje que havia após a expulsão dos demônios do Céu.7
Além disso, em parte alguma da Tradição cristã afirma-se que os demônios no inferno se alimentam literalmente de outros demônios menos afortunados ou das almas dos pecadores que para lá foram. Essa é, claramente, uma invenção do próprio Lewis.
Ficção, não Teologia
Portanto, a obra de Lewis deve ser tratada como ficção cristã — nada mais, nada menos. Não devemos elevar os escritos do autor ao status de tratados teológicos.
C.S. Lewis era anglicano, mas empenhou-se em escrever livros de “cristianismo puro” para todos, de modo que cristãos de qualquer denominação pudessem encontrar neles verdades cristãs universais. *Cartas de um Diabo a seu Aprendiz* é um excelente exemplo dessa abordagem. Trata-se de um guia espiritual envolvente, escrito “por meio do avesso”, que ajuda os leitores a enxergar a batalha espiritual sob uma perspectiva inesperada e os ensina a reconhecer as táticas do inimigo. Afinal, para derrotar um adversário, é preciso compreender como ele pensa e age.
É aí que reside o valor inegável deste livro notável — uma obra à qual vale a pena retornar repetidas vezes, pois oferece novas percepções a cada leitura.
O inimigo da humanidade tenta, de todas as formas, perturbar a nossa consciência e as nossas vidas, buscando, em última análise, sufocar as nossas almas com o orgulho e a malícia. Nós, como cristãos, devemos compreender isso e travar a batalha espiritual, armados de sobriedade, oração, jejum, humildade, mansidão e amor a Cristo.
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1 C.S. Lewis. *Screwtape Proposes a Toast*.
2 Pyotr Pashkov, “Como devemos interpretar *Cartas de um Diabo a seu Aprendiz*, de C.S. Lewis?”, *Foma*.
3 C.S. Lewis. Ibid., Carta VIII.
4 Ibid., Carta VI.
5 Ibid., Carta XIV.
6 São Máximo, o Confessor, “Resposta 61”, em *Respostas a Talássio* (Moscou: Sibirskaya Blagozvonnitsa, 2021), edição online Azbyka.ru.
7 Arquimandrita Sylvester (Stoychev), “Tópico XX: Angelologia”, em *Teologia Dogmática*, edição online Azbyka.ru.
Sacerdote Tarasiy Borozenets
tradução de monja Rebeca (Pereira)







