A LIÇÃO PSICOLÓGICA NA HAGIOGRAFIA DAS MÁRTIRES FÉ, ESPERANÇA, AMOR, E SUA MÃE SOFIA

Na história do Cristianismo, existe um feito heroico e espiritual — um *podvig* — difícil de compreender, impossível de explicar pela lógica e perigoso de tentar repetir. Três jovens e sua mãe, na Roma pagã do século II, aceitaram voluntariamente a morte de mártires por sua fé em Cristo. Fé tinha doze anos, Esperança tinha dez e Amor tinha apenas nove. Sua mãe, Sofia, não dissuadiu as filhas desse sacrifício, mas as abençoou para ele — e ela mesma morreu sobre o túmulo delas três dias depois. Ao lermos essa hagiografia pela primeira vez, nosso coração é tomado por uma mistura indescritível de emoções: admiração, horror, perplexidade e uma ternura profunda que nos leva às lágrimas.

Para nós, pessoas do século XXI, criadas sob um paradigma de conforto psicológico e segurança pessoal, esse feito parece algo extraordinário, quase impossível. E é precisamente por isso que precisamos observá-lo atentamente. Não para imitá-lo, mas para compreender algo essencial sobre a natureza da alma humana, o poder do amor materno e o que realmente significa criar um filho.

Em 17/30 de setembro, a Igreja Ortodoxa celebra a memória das Santas Mártires Fé, Esperança, Amor e de sua mãe, Sofia. Esta é uma das festas mais queridas e reverenciadas pelo povo, e não é de se admirar que os nomes dessas santas tenham se tornado tão familiares ao coração russo. No entanto, por trás dessa familiaridade, muitas vezes esconde-se uma incompreensão sobre a profundidade do que ocorreu em Roma, no século II, durante o reinado do Imperador Adriano. Contudo, esse mesmo evento guarda as respostas para questões que preocupam todos os pais de hoje e qualquer pessoa que já tenha refletido sobre a natureza da verdadeira fé, da esperança genuína e do amor autêntico.

Sofia, cujo nome significa “sabedoria” em grego, era uma viúva originária de Milão. Após a morte do marido, mudou-se para Roma com suas três filhas e estabeleceu-se na casa de uma mulher romana rica. Ela criou as meninas na fé cristã — e não apenas as criou, mas deu a cada uma delas o nome de uma das principais virtudes cristãs. Pistis, Elpis e Ágape — assim soavam seus nomes em grego. Fé, Esperança e Amor. Sofia não deu apenas nomes belos às suas filhas; ela depositou todo o sentido de sua vida em cada uma delas. Ela ensinou suas filhas a não se apegarem aos bens terrenos, instruindo-as não por meio de palavras, mas pelo próprio exemplo — através da oração, do jejum e da esmola aos pobres. Quando chegou o momento em que a fé poderia custar-lhes a vida, as jovens mostraram-se preparadas. Não porque fossem seres especiais ou sobre-humanos, mas porque sua mãe conseguira incutir em seus corações algo mais forte do que o medo da morte.

Sob a perspectiva da psicologia ortodoxa, revela-se aqui um quadro notável. A psicologia secular moderna discorre extensamente sobre o apego, ambientes seguros e a proteção da criança contra traumas. Tudo isso é correto e necessário. Mas Sofia nos mostra algo mais: uma educação em que a segurança é compreendida não como a ausência de perigo, mas como a presença de Deus. A criança que sabe, desde a mais tenra idade, que existe algo mais valioso do que a vida corporal, adquire uma âncora interior que nenhuma força externa pode destruir. Isso não significa que as crianças devam ser expostas ao perigo. Significa que a fé, plantada na alma da criança com amor e sabedoria, é capaz de transformar até mesmo a provação mais aterrorizante em um triunfo do espírito.

Quando o Imperador Adriano convocou Sofia e suas filhas ao palácio, ele inicialmente tentou agir com gentileza. Ficou admirado com a coragem daquelas jovens e com suas respostas claras e firmes. Não conseguia compreender como crianças podessem possuir tamanha convicção. A tentativa de fazê-las mudar de ideia por meio de Paládia — uma instrutora pagã em cuja casa Sofia e suas filhas passaram três dias — também fracassou. Do ponto de vista psicológico, este é um momento marcante: o Imperador concedeu-lhes três dias em um palácio luxuoso, esperando que a tentação da riqueza e do conforto quebrasse a determinação delas. Mas Sofia não usou esses dias para desfrutar do luxo; em vez disso, utilizou-os para fortalecer ainda mais suas filhas na fé. Disse-lhes que chegara a hora de seu *podvig* (feito heroico espiritual), que seu Esposo imortal as aguardava e que a coroa do martírio era mais preciosa do que todos os tesouros terrenos. As jovens ouviram a mãe e prepararam-se para a morte tal como alguém se prepara para um casamento.

Aqui observamos um fenômeno psicológico crucial: a mãe não se limitou a transmitir aos filhos um conjunto de fatos sobre Deus; ela formou neles um sistema de valores abrangente, no qual o eterno tinha precedência sobre o temporal. As crianças não temiam a morte — não por não compreenderem o que ela era, mas porque a realidade do mundo de Deus era mais tangível para elas do que a realidade do mundo terreno. Esta é a verdadeira fé — não a anuência intelectual a um conjunto de dogmas, mas uma consciência viva da presença de Deus que torna possível o impossível.

Quando as torturas começaram, Sofia permaneceu ali e observou. Ela não interveio, não implorou por misericórdia e não tentou dissuadir suas filhas. Ela rezava e as encorajava. De toda a narrativa, este é o momento mais difícil de compreender. Como poderia uma mãe ficar parada e assistir aos seus filhos sendo torturados? É fundamental entender aqui que Sofia não era insensível. Ela não era uma fanática desprovida de instinto materno. Pelo contrário, a hagiografia nos mostra uma mãe que amava seus filhos com um amor tão profundo e perfeito que esse amor se mostrou mais forte do que o instinto de autopreservação ou o medo da perda. Ela compreendia que, se dissesse às filhas para renunciarem à fé naquele momento, salvaria seus corpos, mas destruiria suas almas. E assim, ela escolheu o eterno para elas.

Psicologicamente, trata-se de um paradoxo da mais alta ordem. O amor materno normal e natural busca proteger o filho de qualquer dor e resguardá-lo de todo sofrimento. Mas o amor cristão, iluminado pela graça, enxerga além do visível. Sofia amava suas filhas mais do que a si mesma, e foi precisamente por isso que não se interpôs ao *podvig* delas. Isso não é crueldade nem indiferença. É a forma mais elevada de sacrifício materno: entregar os filhos a Deus, sabendo que eles vão ao encontro d’Ele em vez de desaparecerem no esquecimento.

Fé, a mais velha, foi a primeira. Ela foi açoitada, teve os seios decepados, foi colocada sobre uma grade de ferro em brasa e lançada em um caldeirão de piche fervente. Contudo, pela vontade de Deus, nenhuma dessas torturas lhe causou dano. Quando finalmente decidiram decapitá-la, ela disse: “Irei com alegria ao meu amado Senhor e Salvador”. Uma menina de doze anos proferiu essas palavras. Não há nelas sombra de afetação ou falso sentimentalismo. Há, em vez disso, a certeza serena e clara de quem sabe para onde vai.

Ao presenciar o sofrimento e a morte de sua irmã mais velha, Esperança não vacilou. Ela abraçou o corpo de Fé e quis chorar, mas, por amor a Cristo, suas lágrimas transformaram-se em lágrimas de alegria. Este é um detalhe psicológico marcante: a tristeza humana natural não foi suprimida, mas transfigurada. Ela não desapareceu; pelo contrário, transformou-se em algo maior. Esperança disse à sua irmã mais nova: “Não fiques aqui também, irmã; vamos nos apresentar juntas diante da Santíssima Trindade”. E ela seguiu para o seu próprio martírio. Foi lançada ao fogo e dilacerada por garras de ferro; contudo, uma fragrância maravilhosa emanava de suas feridas, e um sorriso constante iluminava seu rosto.

Amor, a mais nova, com nove anos de idade, testemunhou tudo o que aconteceu com suas irmãs. Sua mãe orava por ela, dizendo: “Meu terceiro ramo, minha filha amada, persevera até o fim. Segues um bom caminho; uma coroa já foi preparada para ti, e a câmara nupcial se abriu”. A menina ouviu a mãe e foi para o seu martírio. Foi estirada numa roda e açoitada até que a carne se separasse dos ossos, sendo depois lançada numa fornalha, mas as chamas não a tocaram. Após tudo isso, foi decapitada pela espada.

Sob a ótica da psicologia ortodoxa, vemos neste *podvig* — este feito heroico de santidade — a manifestação do que os Santos Padres chamam de “coragem espiritual”. Não se trata de bravura natural ou de uma ausência de medo baseada na ignorância ou na negação do perigo. É uma coragem que nasce da fé, da esperança e do amor, acessível não apenas aos adultos, mas também às crianças, desde que suas almas estejam fortalecidas pela graça do Espírito Santo. Como está escrito na hagiografia: para aqueles fortalecidos pela graça do Espírito Santo, a falta de força física não constitui, de forma alguma, um obstáculo à manifestação do poder e da coragem espirituais.

Mas a lição psicológica mais profunda desta narrativa não reside no *podvig* — o feito heroico e ascético — das filhas, mas sim no de sua mãe. Sofia não foi submetida a tortura física. O Imperador condenou-a a algo que, de sua perspectiva, era muito mais cruel: libertou-a para que ela vivesse e carregasse consigo a memória daquilo a que havia assistido. Tratava-se de um tormento da alma, não do corpo. Do ponto de vista psicológico, é precisamente essa forma de sofrimento que muitas vezes se revela a mais destrutiva. Uma mãe que sobrevive à morte de seus filhos, especialmente em tais circunstâncias, pode facilmente ser esmagada pela culpa, pelo luto e pelo desespero. Ela pode cair em depressão, desânimo ou amargura. Pode amaldiçoar a Deus por não ter protegido, salvo ou intervindo nessas mortes.

No entanto, Sofia não amaldiçoou a Deus. Não sucumbiu ao desânimo. Ela tomou os corpos de suas filhas, sepultou-os no alto de uma colina fora da cidade e passou três dias em oração junto ao túmulo. No terceiro dia, o Senhor lhe concedeu uma morte serena. Os fiéis sepultaram-na ao lado de seus filhos. A Igreja incluiu Sofia no rol dos santos — não por tormentos corporais, que ela não sofreu, mas pelos tormentos espirituais que suportou com fé e gratidão.

Este é um momento notável. Sofia é uma mártir não no corpo, mas no coração. Seu *podvig* é de resistência espiritual, de fidelidade a Deus nas circunstâncias mais insuportáveis ​​que se possa imaginar. E talvez seja justamente esse *podvig* que mais ressoe conosco hoje. Graças a Deus, não enfrentamos tais perseguições. Contudo, cada um de nós se depara com perdas, lutos e provações na vida que parecem insuportáveis. Cada um de nós se encontra diante da mesma escolha que Sofia enfrentou: amaldiçoar ou aceitar, desesperar-se ou ter esperança, recuar ou permanecer fiel.

A psicologia ortodoxa encara o sofrimento psicológico não como uma patologia a ser eliminada a qualquer custo, mas como um espaço onde a pessoa pode encontrar a Deus. Nem todo sofrimento é benéfico, e nem todo ele deve ser suportado passivamente. Mas há sofrimentos que não podem ser evitados — sofrimentos que precisam ser vivenciados e nos quais a alma, se ancorada na fé, alcança uma profundidade jamais conhecida. Sofia não viveu seu luto em isolamento e amargura, mas em oração junto ao túmulo de suas filhas. Ela não fugiu da dor, nem tentou anestesiá-la. Ela a levou a Deus, e Deus acolheu a sua alma.

Nesse contexto, o *podvig* — o feito heroico e sacrificial — das mártires Fé, Esperança e Amor, e de sua mãe Sofia, torna-se para nós mais do que um simples fato histórico ou uma tradição eclesiástica; é uma lição viva sobre como a fé transforma a psique humana. Ou melhor, como ela não apenas a transforma, mas desabrocha nela aquilo que foi originalmente implantado pelo Criador: a capacidade da alma de superar o medo, de amar sacrificialmente e de permanecer fiel em meio ao sofrimento.

A fé manifestada pela filha mais velha não é meramente uma adesão intelectual à existência de Deus. É um conhecimento vivo e experiencial de Deus, que liberta a pessoa do medo da morte. Na psicologia ortodoxa, tal fé é compreendida como a forma mais elevada de integração psicológica, na qual todas as faculdades da alma — mente, coração e vontade — estão voltadas para Deus e em harmonia entre si. A pessoa que possui essa fé não se sente dividida ou dilacerada por contradições internas. Ela é íntegra, e é precisamente essa integridade que lhe confere a capacidade de suportar aquilo que, de outra forma, despedaçaria uma alma fragmentada.

A esperança demonstrada pela filha do meio não é simplesmente otimismo ou a crença em um amanhã melhor. Na compreensão ortodoxa, a esperança é uma confiança em Deus que não depende de circunstâncias externas. Não se trata da mentalidade psicológica de que “tudo ficará bem”, mas de uma certeza profunda de que Deus é fiel e de que Sua Providência para conosco é boa, ainda que não consigamos perceber essa bondade no momento presente. A esperança de uma mártir é uma esperança que não se apaga diante da morte, pois não se fundamenta em experiências de vida, mas na promessa de Deus.

O amor manifestado pela filha mais nova não é um sentimento sentimental nem um mero apego. Na tradição ortodoxa, Deus é amor, e quem participa desse amor participa do próprio Deus. O amor de um mártir é um amor mais forte que a morte, um amor que não busca o que é seu, mas se entrega totalmente. Uma menina de nove anos demonstrou esse amor em sua forma mais pura e perfeita, despertando não apenas nossa admiração, mas uma profunda humildade. Nós, adultos, contemplamos uma criança em quem o amor de Deus se manifestou de forma mais plena do que na maioria de nós ao longo de uma vida inteira.

E a sabedoria (*Sophia*) manifestada pela mãe não é conhecimento livresco nem experiência mundana. É o que os Santos Padres chamavam de “sabedoria espiritual” — a capacidade de discernir o eterno do temporário, o genuíno do ilusório e o bem do mal. Sofia era sábia não porque sabia muito, mas porque amava muito. Sua sabedoria residia em criar suas filhas para que fossem capazes desse *podvig* — desse feito heroico de entrega espiritual — e em vivenciar seu sofrimento de tal maneira que ele se tornasse um caminho para Deus, em vez de um afastamento d’Ele.

Essa é a principal lição psicológica da hagiografia das Mártires Fé, Esperança, Amor e de sua mãe, Sofia. Criar os filhos na fé não consiste em moldar um conjunto de crenças corretas; trata-se de criar um ambiente no qual a alma da criança possa se abrir para Deus. Sofia não forçou suas filhas a crer. Ela viveu de tal modo que a fé se tornou para elas algo tão natural quanto respirar. Ela não lhes dizia: “Vocês devem sofrer por Cristo”. Em vez disso, dizia: “Vosso Noivo vos espera, e uma coroa já foi preparada para vocês”. Ela pronunciava tais palavras com tanto amor e tanta fé que as meninas não podiam deixar de acolhê-las.

Hoje, frequentemente nos perguntamos: como podemos criar um filho na fé quando o mundo ao nosso redor é secular, sedutor e hostil? Sofia viveu na Roma pagã, em um ambiente que não era apenas indiferente ao Cristianismo, mas ativamente hostil. No entanto, ela não isolou seus filhos do mundo, não os escondeu nem os protegeu artificialmente. Ela simplesmente viveu de tal maneira que Deus era mais real em seu lar do que o Imperador no trono. E isso se mostrou suficiente.

É claro que não somos chamados a replicar o *podvig* (o feito heroico espiritual) dos mártires. Cada época apresenta à humanidade suas próprias tarefas. Contudo, somos chamados a extrair dessa hagiografia aquilo que pode nos guiar em nossas próprias vidas. E o que pode nos ajudar é isto: a fé, plantada na alma de uma criança por meio do amor e do exemplo pessoal, é capaz de superar qualquer medo. A esperança que se apoia em Deus não se apaga diante das provações mais aterrorizantes. O amor, que é um dom de Deus, é mais forte do que a morte. E a sabedoria de uma mãe que cria seus filhos em Deus é a maior força da Terra.

O dia de comemoração das Santas Mártires Fé, Esperança e Amor, e de sua mãe Sofia — celebrado em 17/30 de setembro —, não é apenas uma festa eclesiástica. É um dia em que podemos fazer uma pausa e nos perguntar coisas que, habitualmente, evitamos encarar. O que estamos ensinando aos nossos filhos? O que estamos incutindo em seus corações? Que sistema de valores estamos formando? Estamos prontos, como Sofia, para entregar nossos filhos a Deus, sabendo que Ele cuidará deles melhor do que nós jamais poderíamos? E acreditamos verdadeiramente naquilo em que dizemos acreditar?

As respostas a essas perguntas não serão simples. No entanto, é justamente na busca por essas respostas que podemos encontrar o caminho para uma fé genuína — e não apenas performática. Para uma esperança que não se esvai. Para um amor que é mais forte que o medo. E para a sabedoria que dá vida a tudo isso.

Santas Mártires Fé, Esperança, Amor e vossa mãe Sofia, orai a Deus por nós!


Viktor Luzhkov
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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