UM BREVE GUIA PARA A CONFISSÃO – PARTE 1

SOBRE A NECESSIDADE DE SAÚDE ESPIRITUAL

Este guia conciso sobre a confissão foi elaborado com base em quinze anos de experiência no trabalho espiritual com cristãos ortodoxos de diferentes idades, níveis de instrução, profissões e origens étnicas. O objetivo do guia é apresentar o tema da confissão da maneira mais compreensível possível a um público mais amplo de fiéis, para que possam preparar-se adequadamente para o Santo Mistério e, assim, facilitar ao sacerdote a tarefa responsável de ouvir as Confissões. O texto funciona como um “primeiro socorro” sobre o tema da Confissão; por isso, foi escrito de forma concisa e em linguagem acessível, com muitos exemplos e evitando, tanto quanto possível, a abordagem de temas teológicos complexos.

O texto foi publicado originalmente no jornal *Pravoslavlje* (1º de março de 2026), como parte de uma colaboração com o Departamento Missionário da Arquidiocese de Belgrado-Karlovci na publicação de textos missionários.

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Entre o povo sérvio, existe um provérbio muito conhecido que ouvimos frequentemente, especialmente entre os idosos. Ele diz: A saúde vem em primeiro lugar!

Esse provérbio é totalmente correto se esclarecermos e determinarmos com precisão a que tipo de saúde ele se refere. De fato, a maioria das pessoas que cita esse ditado pensa exclusivamente na saúde corporal, a qual — todos concordaremos — é, sem dúvida, muito importante. Essa forma de saúde nos permite viver com qualidade e realizar nossas atividades diárias sem impedimentos; sendo assim, representa uma dádiva de Deus que deve ser cuidadosamente preservada e cultivada. No entanto, a saúde externa e corporal, por mais significativa e necessária que seja, tem seu próprio “prazo de validade”: mais cedo ou mais tarde, ela nos deixará. Afinal, a própria vida terrena possui limitações físicas que, um dia, porão fim à saúde corporal, mesmo para a pessoa mais saudável do mundo. Existe, contudo, uma forma de saúde que não tem limitações temporais e que é incomparavelmente mais importante. Trata-se da saúde espiritual, isto é, a saúde da nossa alma. Se nos empenhamos constantemente para alcançar a saúde corporal até o fim da vida, devemos nos empenhar ainda mais intensamente pela saúde espiritual (que deve ser distinguida do bem-estar psicológico), pois ela perdura além do túmulo, visto que a alma é imortal. Isso significa que alcançar a saúde espiritual é a nossa tarefa primordial; é precisamente em relação a essa forma de saúde que o provérbio se cumpre em seu sentido mais pleno: A saúde vem em primeiro lugar!

O que constitui a saúde e a doença da alma? Em termos simples, uma alma saudável é adornada por virtudes e todas as suas faculdades operam corretamente, ao passo que uma alma doente está desfigurada pelo pecado e pelos vícios, e suas faculdades estão distorcidas e funcionam de maneira inadequada. Portanto, a lógica para alcançar a saúde espiritual é bastante simples: consiste em aderir a um modo de vida natural e virtuoso, afastando-se daquele que é antinatural, pecaminoso e vicioso. O objetivo de tal vida não é apenas que nos tornemos pessoas morais, mas que nos tornemos pessoas de Deus (recordemos aqui as palavras conhecidas do nosso santo Patriarca Pavle: “Sejamos pessoas!”). Se, porém, escolhermos o caminho oposto — isto é, se violarmos os mandamentos de Deus e vivermos no pecado —, então teremos apenas o nome de que vivemos, embora estejamos mortos (Ap 3,1). Pois, embora a alma seja imortal (pela graça de Deus), existe também um tipo de morte da alma — a saber, o seu obscurecimento pelo pecado —, que a priva da verdadeira comunhão com Deus caso ela permaneça eternamente em tal estado.

Nesse ponto, é instrutivo recordar um pensamento do grande santo da Igreja, São Gregório Palamas, que, em uma homilia para a festa da Entrada da Santíssima Theotokos no Templo — ao discorrer sobre o mistério da união hipostática das naturezas divina e humana em Cristo, Deus-Homem —, afirma que “para Deus, na verdade, apenas uma coisa é impossível: unir-Se àquilo que é impuro antes que tenha sido purificado”. Em outra homilia para a mesma festa, o santo declara que “não é possível aproximar-se verdadeiramente de Deus a menos que sejamos purificados […]”. São palavras claras e, ao mesmo tempo, de advertência, que nos lembram o quão essencial é purificarmo-nos da impureza do pecado e adquirirmos saúde espiritual o mais breve possível. Contudo, isso não pode ser alcançado sem a ajuda de Deus e sem o nosso próprio esforço.

Em tudo o que foi exposto, a questão fundamental é o nosso encontro com Deus na eternidade: aqueles cujas almas estão saudáveis ​​experimentarão esse encontro como luz eterna, enquanto aqueles cujas almas estão enfermas o experimentarão como trevas eternas. Usemos aqui uma analogia natural para explicar como um encontro com Deus — que é Luz — pode ser vivenciado por alguém como trevas. Em nosso mundo criado, o símbolo primordial da luz é o sol, que ilumina e aquece a todos, sem distinção. No entanto, nem todos experimentamos seus raios da mesma maneira: para olhos saudáveis, eles produzem uma sensação agradável, ao passo que, para olhos doentes, causam desconforto e dor.

A saúde espiritual, contudo, é de grande importância não apenas para a eternidade, mas também para este mundo presente, no qual nascemos e habitamos por algum tempo. De fato, a saúde espiritual é o fundamento da saúde física e da paz interior, da alegria e da tranquilidade que tantas pessoas buscam nesta vida. Em outras palavras, a enfermidade espiritual reflete-se diretamente tanto no surgimento de doenças físicas quanto na inquietação e na ansiedade interiores. Quantos casos existem de pessoas que adoeceram fisicamente e sofreram das chamadas doenças psicossomáticas porque suas almas haviam adoecido previamente devido ao orgulho, ao egoísmo, ao ressentimento, à inveja ou à vanglória? Quantos exemplos existem do impacto direto da enfermidade espiritual sobre o corpo, por meio de pecados como a embriaguez, o abuso de drogas e a imoralidade sexual? Quantos casos há em que “os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos se embotaram” (Ez. 18,2), de modo que, devido aos pecados de seus antepassados, várias enfermidades físicas surgem em seus descendentes, chegando até a terceira e quarta geração? Tais casos são tão frequentes quanto instrutivos, e testemunham claramente tanto a superioridade da saúde espiritual sobre a física quanto a conexão existente entre ambas.

A limpeza é metade da saúde — eis outro provérbio que vale a pena mencionar. Ouvimo-lo com menos frequência, sobretudo em meios médicos. É, contudo, uma verdade, e não apenas no que diz respeito ao corpo, mas também à alma. Já afirmamos que a impureza espiritual é pecado, o qual atua como uma espécie de parasita que polui e envenena o nosso ser interior. Se esse parasita não for removido da alma, com o tempo ele gera uma enfermidade espiritual cuja cura se torna mais difícil quanto mais ela perdura. É particularmente difícil curar a condição em que a pessoa se habitua ao pecado a tal ponto que ele se torna sua segunda natureza — nesse caso, já não falamos apenas de um pecado cometido, mas de uma paixão que criou raízes na pessoa e se fixou em sua alma. Em termos médicos: se alguém comete um determinado pecado apenas ocasionalmente, trata-se de um quadro agudo; se o comete regularmente por um longo período, é uma condição crônica de enfermidade da alma; e se a pessoa se torna escrava do pecado a ponto de ele se tornar sua segunda natureza, então estamos diante do estágio terminal de uma doença espiritual.

Assim como a necessidade de limpeza é óbvia no que diz respeito ao corpo, ela deveria ser ainda mais evidente no que tange à alma. Se, no caso do corpo, o sinal para a limpeza é dado pelo contato com a sujeira, pela aparência da pele ou por um odor desagradável, no caso da alma o sinal vem da consciência — um mestre infalível ao qual sempre se deve dar ouvidos. Todo ser humano possui consciência, seja crente ou descrente; ela é a primeira e fundamental educadora da alma. Se a voz da consciência não é suficientemente audível, isso é sintoma de uma grave enfermidade espiritual; e se a consciência foi, por assim dizer, cauterizada (cf. 1 Tm 4,2) e já não aponta a necessidade de purificar a alma do pecado, então estamos diante de uma condição espiritual gravíssima, da qual somente o Senhor pode resgatar a pessoa mediante uma intervenção extraordinária. E tais intervenções “cirúrgicas” vindas do alto podem, de fato, ser dolorosas…

Se, como diz o provérbio, “a limpeza é metade da saúde”, onde está, então, a outra metade? Quando se trata do corpo, a resposta é clara; mas onde, figurativamente falando, está a “outra metade” da saúde no que diz respeito à alma? Ela reside na ação da energia divina de Deus, que passa a habitar a pessoa de modo constante quando esta se esforça o suficiente para se purificar do pecado e voltar-se para o caminho da observância dos mandamentos divinos. De fato, essa primeira metade — o nosso esforço para purificar a alma — é apenas o pré-requisito para receber a segunda e principal “metade”, por meio da qual nos tornamos seres humanos íntegros, no verdadeiro sentido da palavra. Se a “primeira metade” é o nosso esforço para nos purificarmos da imundície do pecado, a “segunda metade” é a graça divina concedida como recompensa por esse esforço; é ela que nos torna seres humanos verdadeiramente saudáveis, santificados e iluminados — exatamente como fomos destinados a ser. Alcançar esse estado repleto de graça é o objetivo principal da vida humana, pois o homem foi criado precisamente para adquirir a graça de Deus de forma constante e, assim, entrar na eternidade. Quem alcança isso é bem-sucedido, ainda que neste mundo não tenha onde morar e nada mais conquiste; quem não a alcança fracassa e, espiritualmente falando, torna-se totalmente empobrecido, mesmo que obtenha todos os bens e honras que este mundo pode oferecer.

O objetivo de adquirir a graça de Deus é alcançado por meio de uma espécie de “tratamento espiritual” realizado na maior instituição de cura do mundo — a Igreja —, onde toda enfermidade, fraqueza e ferida espiritual pode ser curada. No “tratamento” oferecido por essa instituição de cura, o primeiro passo é o arrependimento e a confissão; estes devem vir acompanhados da consciência de que nossa alma está, em maior ou menor grau, enferma pelo pecado, e de que as feridas do pecado só podem ser curadas no âmbito do acolhimento ascético e litúrgico da Igreja.


Rev. Sacerdote Dr. Oliver Subotich
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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