O ano ortodoxo possui um ritmo, muito semelhante ao fluxo e refluxo da maré – apenas esse ritmo é uma oscilação entre períodos de jejum e períodos (ou alguns dias) de festa. Todas as semanas, com poucas exceções, são marcadas pelo jejum às quartas e sextas-feiras, e a celebração da Divina Liturgia é precedida pela abstinência de alimentos desde a meia-noite até recebermos o Santo Sacramento.
É um ritmo. Nosso mundo moderno perdeu a maior parte de seu ritmo natural. O sol nasce e se põe, mas causa pouco impacto em um mundo movido e iluminado por outras fontes. Nos Estados Unidos, praticamente tudo está sempre disponível, independentemente da estação, embora os produtos químicos usados para preservar essa maravilhosa abundância provavelmente estejam envenenando lentamente nossos corpos.
As Escrituras falam dos ritmos do mundo: “o sol para governar o dia… a lua e as estrelas para governar a noite…”
O ritmo da Igreja não busca nos tornar escravos do calendário, nem trata certos alimentos como pecaminosos. Ele simplesmente nos convoca a uma maneira de viver mais humana. Não é propriamente humano comer o que se quer, a qualquer hora que se queira. Até mesmo Adão e Eva, no Jardim, conheceram inicialmente a experiência de se abster do fruto de uma determinada árvore.
Os ortodoxos não passam fome quando jejuam; simplesmente nos abstemos de certos alimentos e, geralmente, comemos menos.
Ao mesmo tempo, somos instruídos a rezar mais, a participar dos ofícios com mais frequência e a aumentar nossa generosidade para com o próximo (a esmola).
Mas é um ritmo: aos jejuns seguem-se as festas. O Jejum dos Apóstolos começa na segunda segunda-feira após o Pentecostes e termina na Festa dos Santos Pedro e Paulo, em 29 de junho / 12 de julho. A maior parte do mundo cristão nada saberá sobre isso — que os cristãos do Oriente terão iniciado um período de jejum enquanto o mundo começa a pensar em férias.
O Deus contemporâneo assemelha-se muito à dieta contemporânea: queremos d´Ele tanto quanto desejamos — a qualquer hora, em qualquer lugar. Não há ritmo em nosso desejo, apenas a ascensão e a queda das paixões. Não há legalismo no jejum ortodoxo. Não creio que Deus puna aqueles que não jejuam. Acredito que eles simplesmente continuam a tornar-se cada vez menos humanos. Não aceitamos os limites e as fronteiras da nossa existência e, assim, descobrimos que os desejos são incessantes e desenfreados. Isso nos torna bestiais.
Àqueles que iniciaram o jejum — que Deus lhes conceda graça! Àqueles que nada sabem sobre o jejum — que Deus lhes conceda graça e os preserve de um mundo que os devoraria. Que Deus conceda a todos nós as misericórdias de Sua bondade e nos ajude a recordar a obra de Seus benditos apóstolos!
Sacerdote Stephen Freeman
tradução de monja Rebeca (Pereira)








