A FÉ COMO CAMINHO: SOBRE O AMADURECIMENTO DA ALMA E A FIDELIDADE A CRISTO

Sobre o que os cristãos modernos silenciam? Por que o medo do escárnio é, por vezes, mais forte do que a fé, e como podemos distinguir o silêncio sábio da renúncia covarde? Conversamos com o Padre Maxim Yanyshevsky — professor da Academia Teológica do Monastério de Sretensky e clérigo do Monastério Novodevichy, em Moscou — sobre o amadurecimento da alma, o caminho que vai da primeira semente de fé até uma profunda fidelidade a Deus, como não confundir o zelo espiritual com o orgulho e como permanecer genuinamente na verdade — com firmeza e convicção.

— Padre Maxim, o Apóstolo Pedro negou a fé quando houve uma ameaça direta à sua vida. Muitos cristãos modernos silenciam sobre sua fé em situações muito menos perigosas, temendo o ridículo, a incompreensão das pessoas, perguntas embaraçosas e problemas familiares. Qual é o grau de responsabilidade espiritual por ocultar a fé no dia a dia, quando as pessoas se calam sobre sua religião?

— Podemos começar com a seguinte reflexão: a fé pode se desenvolver. No Evangelho, encontramos uma imagem em que a fé é comparada a uma pequena semente que germina gradualmente e pode crescer até se tornar uma grande árvore, sob cuja sombra se pode abrigar e em cujos ramos muitas aves podem construir seus ninhos. Mas, para que essa semente se transforme em árvore, ela precisa percorrer um certo caminho.

As pessoas frequentemente percebem a fé como a convicção da existência de Deus. Mas esse é o primeiro passo da fé, a partir do qual se pode ascender gradualmente a algo mais elevado. Por exemplo, a fé como confiança. Essa também é uma faceta da fé. Mas, para ter tal fé em Deus, é preciso trilhar um caminho difícil.

Ou, por exemplo, outra faceta da fé: a fé como fidelidade. Quando uma pessoa é fiel a Deus, ela não precisa de nenhuma prova da existência de Deus — para ela, o relacionamento é real; ela o valoriza e o preserva. Nesse estado, o cristão tenta eliminar de sua vida tudo o que possa destruir esse relacionamento. Portanto, devemos compreender que, a partir do primeiro ponto — a convicção da existência de Deus —, a fé pode evoluir para a confiança e a fidelidade a Deus. Mas, para que isso aconteça, é necessário que transcorra certo tempo e que ocorram certos eventos na vida. É um caminho. Se percebemos superficialidade na fé de alguém, não devemos nos apressar em julgá-lo. Hoje ele pensa em onde e com quem é mais interessante passar o tempo, mas amanhã pode começar a ler o Evangelho ou até decidir entrar para um monastério.

No Evangelho, vemos que a perfeição dos apóstolos também cresceu; ela não surgiu da noite para o dia. Tudo começou com algo pequeno, com o “ouvir falar” de Cristo e uma inspiração que os arrebatou e se transformou em uma grande fé. Mas que caminho espinhoso foi esse; que provações e desafios os apóstolos tiveram de enfrentar!

Podemos traçar um paralelo com a forma como os relacionamentos familiares são construídos. Tudo começa de forma simples, com o conhecimento mútuo. Os primeiros encontros podem ser arrebatadores, e o encantamento inicial pode evoluir para um relacionamento mais sério. Mas quantas dificuldades é preciso superar para que o relacionamento se torne real, ganhe valor e profundidade! Quando alguém supera tudo isso, passa a valorizar o relacionamento e não se envergonha dele. Um homem de família comum não se envergonha de ter esposa e filhos. Um monge comum não se envergonha de ser monge. O mesmo ocorre com Cristo. Se isso se tornou algo natural e harmonioso em você, então não terá medo de afirmar que é cristão e de dar testemunho disso ao mundo ao seu redor.

Outra situação é quando as pessoas possuem muito e compreendem muito, mas acabam abandonando tudo. Foi o caso de Judas, que traiu Cristo; ou de um homem que abandona a família e os filhos; ou de um cristão que deixa a Igreja. Quando essa crise ocorre? O que contribui para ela? E quais razões espirituais estão na raiz dessa tragédia?

— Conhecemos as vidas dos santos e ascetas. Há exemplos de confessores destemidos que, sem medo de nada, enfrentaram a tortura. Mesmo sob tortura, esses santos denunciavam os governantes, como recordamos na vida do Grande Mártir Jorge, o Vitorioso. Mas houve também aqueles que preservaram a vida pelo silêncio e ajudaram outros a escapar, afastando-se do mundo sem empreender grandes feitos ascéticos. Em que circunstâncias o silêncio sobre a fé pode ser considerado sabedoria espiritual, e quando ele se torna covardia e uma renúncia oculta?

— Quanto à confissão da fé, cremos que tudo está nas mãos de Deus. Pode acontecer de sermos chamados, pela Providência Divina, a testemunhar nossa fé diante dos outros. Mas, se isso ocorrer, o Senhor nos concede a força e a graça necessárias para cumprir tal missão. Tudo é dado a cada um segundo as suas forças e a sua capacidade. Aquele que pode conter mais, contém mais. E a história da Igreja nos oferece inúmeros exemplos de uma multidão de pessoas que testemunharam sua fé abertamente, sem medo. É um desafio para nós hoje, mas, se olharmos para a vida da Igreja primitiva — quando as perseguições duraram mais de três séculos —, vemos que a iminência de ter de confessar a fé não era algo que as pessoas percebiam de forma tão aguda no dia a dia. Ao receberem o Batismo, os cristãos já compreendiam que poderiam ser chamados a prestar contas de sua fé.

Naquele período, a Igreja adotou uma decisão sábia: “Se lhe perguntarem se você é cristão ou não, não deve negar a sua identidade. E, se for chamado a prestar contas, deve dar uma resposta, mesmo que isso implique a morte. Contudo, não deve buscar ativamente o martírio”. Alguns gostaram dessa orientação, outros provavelmente não, mas tal posição foi consolidada na Igreja. Se recordarmos a história de Orígenes, veremos que seu pai sofreu por sua fé. O jovem também queria professar o Cristianismo juntamente com o pai, mas não pôde fazê-lo porque, quando o pai estava sendo levado para a morte, a mãe de Orígenes escondeu as roupas do rapaz. Ele sentiu vergonha de correr nu pela rua e, dessa maneira sábia, sua mãe o salvou. Mais tarde, já no fim da vida, Orígenes acabou sofrendo fisicamente por Cristo durante o reinado do imperador Décio, mas isso ocorreu depois de ele já ter percorrido a sua espinhosa trajetória de vida.

Acredito que o mesmo se aplica às nossas vidas; em hipótese alguma devemos ter medo de dizer que somos cristãos e que pertencemos a Cristo.

Ao tratar do medo de uma confissão pública da fé no mundo moderno — onde não há uma perseguição aberta ao Cristianismo —, podemos abordar a questão da autossuficiência e da dependência da opinião alheia. Se um cristão se preocupa excessivamente com o que os outros pensam e atribui grande importância a isso, naturalmente terá dificuldade em fazer o sinal da cruz e testemunhar sua fé, por receio de ser ridicularizado. Trata-se de uma questão de imaturidade psicológica, não espiritual. É preciso buscar uma integridade interior que permita à pessoa ser psicologicamente autossuficiente e crescer espiritualmente em Cristo.

Essa integridade interior também é essencial na vida cotidiana: não ter medo de se destacar e expressar opiniões, ao mesmo tempo em que se busca manter a paz e o diálogo com o próximo. Isso é um sinal de maturidade interior e autossuficiência. No âmbito espiritual, a lógica é a mesma. Lembro-me de uma época, quando eu era seminarista, em que levava muito a sério o que as pessoas diziam ou pensavam a meu respeito. Certa vez, ao confidenciar isso ao Padre (hoje Metropolita) Tikhon, ele me respondeu: “Se você quer ser a pessoa mais infeliz que existe, continue pensando no que os outros pensam de você. Se não quer ser infeliz, pare de pensar nisso e simplesmente viva”.

— Onde está a linha divisória entre manter-se firme na fé de forma genuína e o autoengano espiritual? Refiro-me, por exemplo, a quando alguém, movido pelo orgulho e pelo desejo de se afirmar, busca deliberadamente conflitos onde o Senhor não exige tal postura.

— Essa é uma boa pergunta. Devemos sempre lembrar qual deve ser a nossa motivação e o que devemos levar ao mundo. Lembremos da passagem do Evangelho em que Cristo viajava para Jerusalém passando pela Samaria e não foi acolhido pelos habitantes de uma aldeia samaritana, pois Sua aparência era a de um peregrino. Os apóstolos Tiago e João, indignados, perguntaram: “Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu para consumi-los?” (Lc 9,54). Cristo os repreendeu e respondeu: “Não sabeis de que espírito sois” (Lc 9,55). Cristo chamou Seus discípulos para o espírito de paz, unidade e amor. Esse é o espírito de Cristo; esse é o espírito de Deus. E todo cristão deve empenhar-se por isso. Se você perde esse espírito, então começam os problemas. Você pode ter espíritos diferentes — por exemplo, o espírito de superioridade sobre os outros, o espírito de ensinar ou de punir. Mesmo que você tenha o espírito de ensinar, mas sem amor, sem indulgência para com o próximo, então já não é o espírito de Cristo; o espírito de orgulho está misturado aí.

Quando se perde o espírito de amor pelo próximo, surgem os problemas. Por exemplo, você deseja ensinar a fé cristã a alguém. Esse desejo é bom, mas se a base dele for o próprio ego e um sentimento de superioridade — “Sou melhor e mais inteligente!” —, então problemas podem estar à espreita. As pessoas perceberão isso de uma forma ou de outra. Se não houver em você amor, bondade, calor interior e humanidade, suas palavras poderão ser difíceis de aceitar. As pessoas de hoje são vulneráveis ​​e excessivamente sensíveis, e devemos levar isso em conta. É sempre melhor examinar-se atentamente e estar atento a esse aspecto. Se, em algum momento, você perder o calor interior, é melhor parar para orar e voltar-se para Cristo em arrependimento, a fim de recuperar esse espírito contrito. Caso contrário, você pode cair em um estado de ilusão espiritual.

—Se um cristão sente que não está pronto para uma confissão aberta e sente medo, por onde deve começar o caminho para adquirir a liberdade interior que os mártires demonstraram nos primeiros séculos do Cristianismo? E existe o perigo de pular essas etapas de crescimento espiritual nessa trajetória?

—O amadurecimento na fé é um processo gradual. É preciso estar consciente do que se passa em seu interior. Se você não está pronto para realizar certas coisas, deve admitir que não está pronto e aceitar essa situação. Tudo dentro de você deve se desenvolver gradualmente. Por que vemos exemplos na vida monástica em que grandes feitos ascéticos não são realizados por jovens noviços, mas por monges experientes? É preciso amadurecer para essa experiência, passar pelo noviciado, aprender a viver em paz com os irmãos e com os outros, cumprir uma série de obediências e, então, você pode avançar para algo maior. Trata-se de um desenvolvimento gradual. O mesmo ocorre na vida espiritual: em certo momento, você deve reconhecer com humildade que não está pronto e aprender a crescer espiritualmente. Afinal, isso é um dom de Deus; o Senhor pode conceder-lhe gradualmente aquilo de que você precisa.

Além disso, você deve ter a consciência que gera humildade: “Sem Deus, nada podeis fazer”. É preciso compreender que, no início de qualquer obra, é necessário voltar-se para Deus. É uma ideia simples, mas extremamente importante, e você também precisa amadurecer para compreendê-la plenamente. Muitas vezes pensamos em Deus por último, e não em primeiro lugar, tentando resolver o problema por conta própria inicialmente. Talvez nos lembremos de Deus de passagem, mas, infelizmente, não nos voltamos imediatamente para Ele de todo o coração, nem compartilhamos nosso problema com Deus ou O convidamos a entrar nessa situação. A experiência vem com o tempo, e chegamos a ela gradualmente, em pequenos passos. Precisamos ter mais calma; não deve haver pressa na vida espiritual — devemos viver e apreciar o que temos. Tudo isso entrará gradualmente em nossas vidas, no tempo certo e pela vontade de Deus.


Sacerdote Maxim Yanyshevsky
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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