HOMILIA NO QUINTO DOMINGO APÓS PENTECOSTES.
O ENDEMONIADO GADARENO — Mateus 8:28-9:1
Em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.
Hoje, na leitura do Evangelho, ouvimos a história do endemoniado de Gadara, de quem nosso Senhor Jesus Cristo expulsou a legião de demônios. No Evangelho, há muitas passagens que, mesmo após uma leitura atenta e reflexiva, parecem difíceis de entender. Por que o homem, ao se dirigir a Deus, ao próprio Cristo, a encarnação da graça, da bondade e do auxílio divino onipotente, diz: “Não me atormentes”? E quantas pessoas ao nosso redor experimentam tormento e sofrimento enquanto vivem neste mundo redimido pelo sacrifício de nosso Salvador na Cruz? Por que isso acontece? Por que as pessoas caem no abismo da destruição? Por que o sentido principal desta vida, que consiste na busca da comunhão com Deus, se afasta imperceptivelmente delas, e suas vidas se dissolvem em toda sorte de vazio e vaidade? Quais são os limites da influência do demônio sobre a coroa da criação de Deus — o homem? Em que circunstâncias o demônio maligno pode se armar com toda a sua fúria e inúmeros enganos para escravizar um homem como nós, privá-lo de suas vestes de incorrupção e torná-lo como este endemoniado que não usava roupas nem vivia em casa, mas em sepulcros, privado da proteção de seu Pai — a ponto de levar um homem vivo aos sepulcros? Como devemos entender as palavras do apóstolo Paulo, que chama o diabo de governante deste mundo? O apóstolo Paulo diz: “Porque a nossa luta não é contra a carne e o sangue, mas contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais da maldade nas regiões celestes” (Efésios 6:12).
O Senhor chama os demônios de governantes deste mundo, segundo as palavras de São João Crisóstomo, não porque devam governar o mundo, sustentá-lo com a sua mão direita como Deus faz, mas porque são a verdadeira causa de todas as más ações. As Escrituras geralmente chamam as ações pecaminosas de “o mundo”. Por exemplo, nas palavras de nosso Senhor Jesus Cristo, “vós não sois deste mundo” (João 15:19), assim como Eu também não sou deste mundo (João 8:23), está escrito no Evangelho de João. Outros Santos Padres entendem pela palavra “mundo” o conjunto das paixões.
São Paisios do Monte Athos observou, com muita sutileza, que hoje o espírito mundano se tornou nosso maior inimigo. Em nossa época, muito do que é mundano entrou em nossas vidas, muito do “espírito deste mundo”. Esse espírito mundano está destruindo o mundo. Tendo recebido este mundo em nós, tendo nos tornado mundanos interiormente, as pessoas expulsaram Cristo de suas almas. Aqueles cujos corações se entregam à vaidade e ao mundanismo vivem sob o domínio do governante desta era. Ou seja, o diabo governa a vaidade e aqueles que são escravizados pela vaidade, escravizados pelo espírito deste mundo — o mundo no sentido patrístico.
O coração cativo deste mundo vão mantém sua alma em estado de subdesenvolvimento e a mente em trevas. Então, o homem apenas aparenta ser um homem; em essência, ele é, na verdade, uma espécie de prematuro espiritual, defeituoso, um morto-vivo, enterrado vivo como o endemoniado gadareno nos muitos túmulos onde permanece. O que é este cemitério de cadáveres? Muitos de nós o conhecemos, e não apenas por ouvir dizer. Sobre esses túmulos caminham as sombras daqueles que consideram seu objetivo nesta existência terrena como entretenimentos insanos, sacrificando a eles suas habilidades e talentos; aqueles que roubam de si mesmos o tempo mais precioso que Deus nos dá para alcançar coisas elevadas, desperdiçando-o irracionalmente, vagando por informações absolutamente desnecessárias, que apenas dispersam a mente e lançam seu mundo interior no caos. Este é, hoje, o maior gerador do espírito deste mundo. O demônio, também conhecido como o odiador e destruidor de homens, não considera tão importante nos destruir fisicamente como fez com a manada de porcos em Gadara, mas sim arrastar nossas almas imortais para as trevas desta era.
Recordamos um incidente muito interessante e esclarecedor. Certa mulher que vivia na Rússia na década de 1990 tornou-se muito interessada em televisão. Naquela época, éramos inundados pelo conteúdo de uma caixa de Pandora aberta — uma enorme quantidade de programas variados. Eram desnecessários, vazios, vulgares, pregavam violência e depravação e incutiam nas massas esse espírito de vaidade deste mundo. Então, ela assistia à televisão e se sentia particularmente atraída por programas sobre médiuns e curandeiros; achava-os muito interessantes e tentava não perder uma única noite sequer. De repente e inesperadamente, descobriu que estava acometida por uma doença muito grave. Descobriu que tinha câncer, e que esse câncer havia atingido sua medula espinhal, causando-lhe dores insuportáveis. Então, ela foi pessoalmente a um desses curandeiros, encontrou uma oportunidade para ir até ele e disse: “Faça o que for preciso para me curar desta doença e me livrar deste sofrimento terrível”. Ele disse: “Tudo bem, eu a ajudarei, mas tenho uma condição. Escreverei um bilhete e o colocarei em um envelope lacrado. Quando sentir dor, coloque-o sobre a coluna e a dor passará”. Ela fez como ele instruiu, e a dor realmente diminuiu. Mas então, uma catástrofe ainda pior a atingiu. Ela sentia um peso emocional e uma depressão tão grandes, uma sensação tão vazia de sentido na vida, que o pensamento de suicídio lhe vinha cada vez mais frequentemente. Então, ela pediu ajuda a uma amiga cristã que, por sorte, era filha espiritual do Arquimandrita Kirill (Pavlov). Essa pessoa a ajudou a chegar até o Padre Kirill, e o Padre Kirill lhe disse: “Minha querida, vamos dar uma olhada no que tem no envelope”. “Não!”, ela disse. “De jeito nenhum! Aquele curandeiro me disse que assim que eu abrir o envelope, morrerei”. Ele disse: “Muito bem, vamos fazer isso. Como padre e confessor, prometo que, se alguém morrer, serei eu. Assumirei esse castigo.” Quando abriram o envelope, viram o bilhete onde estava escrito: “Satanás, ajude-a enquanto ela viver nesta vida, mas a alma dela é sua.”
Esta história terrível nos ensina que, por meio da insensatez, por meio da crença supersticiosa, uma pessoa pode se tornar vítima do diabo, escravizada por ele; e quem sabe o que teria acontecido com aquela mulher se o Senhor misericordioso não a tivesse conduzido a este ancião de Deus.
O apóstolo diz: “Mas Deus, que é rico em misericórdia, pelo Seu grande amor com que nos amou, estando nós ainda mortos em nossos pecados, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos)” (Efésios 2:4-5). Não nos esqueçamos destas palavras significativas, irmãos e irmãs. Estejamos atentos às palavras das Sagradas Escrituras. Ouvindo o salmista e profeta David, que falou pelo Espírito Santo: “Por que buscais coisas vãs e buscais a falsidade?” (Salmo 4:3), no santo Saltério, fujamos do espírito deste mundo, do espírito das trevas desta era, e nos apeguemos com todo o nosso coração, alma e força ao Santo Espírito de Deus. Amém.
Hieromonge Pavel (Shcherbakov)
tradução de monja Rebeca (Pereira)








