A DOR CAUSADA PELA AUSÊNCIA DE DEUS

A Ausência de Deus

Muitas vezes, a palavra do Senhor produz seus frutos mais ricos por meio de Seu silêncio, Seu afastamento e até mesmo Sua ausência. Quantas vezes nós mesmos comunicamos o que é mais essencial não por meio de palavras, mas por meio do silêncio e de ações? Frequentemente, percebemos que a ausência de um ente querido nos permite conhecê-lo muito melhor. Isso acontece porque a ausência desperta em nós um anseio profundo, uma tristeza intensa e, consequentemente, um conhecimento mais profundo.

O mesmo se aplica a Deus. Uma vez que experimentamos Sua presença, uma vez que O provamos, Ele e somente Ele Se torna nosso anseio e nosso amor. Sua ausência nos esmaga, dando origem em nossos corações ao sofrimento e à dor. Contudo, tudo o que é necessário é que não cedamos nem desanimemos, mas permaneçamos dentro dessa dor da ausência de Deus e no anseio contínuo e ardente por Ele. Se não buscarmos refúgio em outros desejos e anseios, perseguindo prazeres passageiros e nos dissipando neles, então adquiriremos um conhecimento experiencial de Deus; chegaremos a conhecê-Lo mais claramente. E através do conhecimento de Deus, também chegaremos a nos compreender mais profundamente. Descobriremos nossa verdadeira condição, nossas verdadeiras dimensões.

A Pedagogia do Afastamento de Deus

Quando Deus nos revela Seu rosto, descobrimos que Ele mesmo é a nossa alegria, Ele mesmo é a nossa vida, Ele é o único que realmente nos faltava. Quando Ele Se afasta, somos humilhados e esmagados pela dor de Sua ausência. Quando sentimos essa dor dentro de nós, é um sinal de que ansiamos por uma comunhão viva e autêntica com Ele. E não encontramos descanso até que O encontremos.

A dor de sermos “abandonados” também nos ajuda a nos distanciarmos da mentalidade que nos confina a uma religiosidade formal e estereotipada, que pode nos confortar psicologicamente, mas não espiritualmente. Em vez disso, entramos no reino de um encontro livre com Deus. Ao lutarmos com a dor que nasce e se enraíza no silêncio e na ausência de Deus, cultivamos e exercitamos a capacidade de amar, perdoar e nos abster de julgar os outros. É impossível nos ocuparmos com críticas, julgamentos ou desprezo pelos outros quando vivemos profundamente com a dor da ausência de Deus, pois essa dor é a própria ausência da vida e leva a pessoa aos limites do seu ser.

Na verdade, essa dor é uma experiência de morte, e traz um sofrimento terrível. Contudo, ao suportarmos a dor do aparente abandono de Deus e da nossa falta de alegria, os olhos da nossa alma começam gradualmente a se abrir e começamos a enxergar o verdadeiro valor da nossa pessoa, moldada “à imagem de Deus”. Então, tornamo-nos capazes de compreender a grandeza da nossa existência e de reconhecer o nosso verdadeiro valor.

Guardando os Mandamentos do Senhor

Não podemos nos chamar de cristãos enquanto desprezamos o pecador — nosso companheiro de serviço, nosso irmão, que foi criado à imagem de Deus. Como podemos deixar de sofrer com o nosso próximo pela sua queda? Como podemos não desejar a sua salvação ou reconhecer o seu verdadeiro valor? Se não adquirirmos a sensibilidade para valorizá-lo profundamente e amá-lo sinceramente, que valor há em receber a Sagrada Comunhão ou em orar?

Tudo o que nos importa é a nossa própria autoestima, enquanto nos aprisionamos dentro do nosso próprio ego em vez de nos oferecermos a Cristo. Os mandamentos de Deus não podem ser praticados meramente como um meio de alcançar o céu ou persuadir Deus a satisfazer certas necessidades. Os mandamentos de Cristo não são um “exercício” obrigatório; são o fruto da comunhão com Deus. Assim como o nosso amor pelas outras pessoas molda a maneira como vivemos e nos comportamos, a observância dos mandamentos de Deus não é meramente um código moral pelo qual nos tornamos bons e “salvos”. Em vez disso, é o fruto do nosso relacionamento pessoal com Deus.

Só Ele é a nossa salvação. Só Ele é a nossa vida e o nosso refúgio. Subamos também com os discípulos ao alto monte, para lá ouvirmos Cristo, que abre a boca para nos ensinar: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus”.

Muitas vezes, cumprimos os mandamentos de Deus por medo do castigo ou por razões egoístas; o nosso objetivo, neste caso, não é Deus em si, mas os nossos próprios interesses. Quantas vezes uma mãe vem à igreja pedindo que o seu filho seja lembrado na Divina Liturgia, que sejam lidas orações para que ele ou ela encontre um cônjuge…

Cada Fracasso Esconde um Tesouro Dentro de Si

Muitas vezes encontramos pessoas que, embora vivam em pecado, escondem dentro de si um tesouro. Seu pecado é simplesmente o resultado de uma busca frustrada por Deus. Ao longo de suas vidas, elas O buscaram, mas da maneira errada. É por isso que Deus não as rejeita em seus fracassos, pois Ele vê que, por trás desses fracassos, era a Ele que elas realmente buscavam.

Há muitas pessoas buscando a Verdade através de diversos sistemas filosóficos. Embora vivam em engano, elas descobrem dentro de si algo nobre e edificante como fruto de sua busca sincera por Deus. Por essa razão, quando chegar o momento certo em suas vidas, Deus encontrará uma maneira de atraí-las para perto de Si e recebê-las no seio de Sua Igreja.


Arquimandrita Barnabé Iangos
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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