“Vigiai, pois, porque não sabeis em que dia vem o vosso Senhor.” (Mt 24,42) Há uma pergunta que atravessa os séculos e nunca perdeu sua força: e se Cristo voltar hoje? Vivemos como se o tempo nos pertencesse. Fazemos planos para amanhã, para o próximo mês, para o próximo ano, esquecendo-nos de que a única certeza que possuímos é o momento presente. Cada amanhecer nos aproxima da eternidade. Cada batida do coração é um passo em direção ao encontro definitivo com Cristo.
Na tradição da Igreja Ortodoxa, a Segunda Vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo não é motivo de curiosidade ou especulação, mas de vigilância, arrependimento e esperança. Não perguntamos quando Ele voltará; perguntamos se estaremos preparados quando Ele vier.
Se Cristo voltar hoje, o que encontrará?
Encontrará um mundo tecnologicamente avançado, mas espiritualmente empobrecido. Um mundo hiper conectado pelas redes, mas cada vez mais distante de Deus. Encontrará homens que conquistaram o espaço, mas perderam o caminho do coração. Encontrará guerras, injustiças, fome, perseguições, famílias divididas, crianças sem referências, idosos abandonados e multidões que substituíram a verdade pelos próprios desejos. Verá uma humanidade que fala constantemente sobre direitos, mas cada vez menos sobre responsabilidades diante de Deus.
Encontrará igrejas cheias de atividades, mas muitas vezes vazias de arrependimento. Encontrará cristãos que conhecem as Escrituras, mas raramente as vivem. Encontrará pessoas preocupadas em parecer santas diante dos homens, mas pouco preocupadas em serem santas diante d’Ele.
Os Santos Padres sempre ensinaram que o maior sinal dos últimos tempos não seria apenas a multiplicação do mal, mas o esfriamento do amor. São João Crisóstomo advertia que o pecado mais perigoso é aquele que deixa de provocar lágrimas. Quando a consciência deixa de doer, a alma começa a morrer.
Mas talvez a pergunta mais importante não seja: o que Cristo encontrará no mundo? A verdadeira pergunta é: O que Ele encontrará em mim? Encontrará um coração que luta diariamente para amar? Encontrará alguém que perdoou aqueles que o feriram? Encontrará uma vida alimentada pela oração, pela participação nos Santos Mistérios, pela leitura da Palavra e pela prática da misericórdia? Ou encontrará um cristão ocupado demais para Deus?
No Evangelho, Cristo não nos pergunta quantos bens acumulamos, quantos seguidores conquistamos ou quanto sucesso alcançamos. Perguntará se demos de comer ao faminto, se visitamos o doente, se acolhemos o estrangeiro, se amamos o próximo e permanecemos fiéis ao Evangelho.
E então chegará o momento da nossa resposta. Talvez muitos desejem apresentar justificativas: “Senhor, eu estava sem tempo.” “Senhor, eu tinha muitos compromissos.” “Senhor, o mundo era difícil.” Mas nenhuma dessas respostas poderá substituir uma vida de fidelidade. A única resposta convincente será aquela escrita pelas nossas obras, pelas nossas escolhas e pelo amor que cultivamos.
Os santos não viveram esperando o fim do mundo com medo. Viveram esperando encontrar Cristo com alegria. Cada dia era uma preparação para esse encontro. Cada oração era um ensaio para a eternidade. Cada ato de amor era uma antecipação do Reino de Deus.
Quem vive cheio do Espírito não teme a Segunda Vinda; antes, deseja contemplar Aquele que já habita em seu coração.
A liturgia da Igreja constantemente nos recorda essa esperança. Cada celebração é um anúncio do Reino que vem. Cada Divina Liturgia nos faz proclamar que esperamos “a bendita esperança e a manifestação gloriosa do grande Deus e Salvador, Jesus Cristo”. O cristão vive entre a memória da primeira vinda de Cristo e a expectativa da Sua volta gloriosa.
Talvez Cristo não volte hoje para julgar toda a humanidade. Mas talvez hoje seja o último dia da minha vida. E, nesse caso, para mim, a eternidade começa hoje.
Por isso, a Igreja nos convida continuamente ao arrependimento (metanoia): mudar a mente, mudar o coração, mudar a direção da vida. Ainda há tempo para perdoar, reconciliar-se, abandonar o pecado, voltar à oração e abrir espaço para Deus.
Não sabemos o dia nem a hora. Sabemos apenas que Ele virá.
E quando vier, que possa encontrar em nós uma fé viva, uma esperança inabalável e um amor que jamais se apagou.
Que a nossa resposta não seja feita de desculpas, mas da humilde oração dos santos:
“Vem, Senhor Jesus!” (Ap 22,20)
E que, ao contemplar nossas vidas, Ele possa dirigir-nos as palavras mais desejadas por toda alma cristã:
“Muito bem, servo bom e fiel… entra na alegria do teu Senhor.” (Mt 25,23)
+ Bispo Theodore El Ghandour







