SOBRE DEPRESSÃO, NEUROSES E OUTROS TRANSTORNOS NERVOSOS
Não lhe desejo riqueza, fama, sucesso ou mesmo boa saúde, mas apenas paz na alma. Isso é o mais importante. Se você tiver paz, será feliz. Santo Aleixo do Ermitério de São Zósimo
Fala-se e ouve-se cada vez mais sobre fadiga crônica, neuroses, depressão e outras doenças que surgem “por causa dos nervos”. Além disso, médicos afirmam, com base em inúmeros estudos, que uma enorme quantidade de doenças físicas se desenvolve justamente em decorrência de tensão nervosa prolongada. Ademais, cerca de metade das doenças atualmente estudadas pela psiquiatria consiste em condições limítrofes (aquelas que surgem devido a questões nervosas).
Uma conversa com o renomado psiquiatra moscovita e Candidato em Ciências Médicas, D. A. Avdeev, sobre esses transtornos, as formas de superá-los e a abordagem cristã a eles, foi gravada há alguns anos para um programa educativo de cunho espiritual na televisão bielorrussa; no entanto, apenas fragmentos dela foram ao ar.
Em 2022, Dmitry Alexandrovich faleceu prematuramente, vítima de câncer. Ele era um profissional que acreditava em Deus e buscava promover uma atitude cristã em relação às doenças mentais, o que o levou a desenvolver um modelo de psicoterapia ortodoxa. Este artigo apresenta uma versão mais completa de sua entrevista em vídeo.
A vida do homem moderno é repleta de estresse e sobrecarga emocional. E não é para menos: a abundância de acontecimentos e informações, como um poderoso tsunami, inunda nossos pensamentos e sentimentos todos os dias. Praticamente não há tempo para parar e recuperar o fôlego. Estamos sempre com pressa…
Além disso, o clima esfria e a chuva cai. O outono é uma época em que crises emocionais e doenças crônicas se intensificam, e o bem-estar geral e o humor sofrem deterioração.
Mas será que apenas o ritmo de nossas vidas e as condições climáticas são os responsáveis pelo rápido aumento de doenças decorrentes de problemas nervosos e pela crescente evolução de estados limítrofes para doenças mentais? Eis o que dizem, a esse respeito, os “Fundamentos da Concepção Social da Igreja Ortodoxa Russa”:
A Igreja vê as doenças mentais como uma das manifestações da corrupção pecaminosa geral da natureza humana.
Sabe-se, pela história da medicina, que desde o Batismo da Rússia, a medicina na região esteve sob o patrocínio direto da Igreja Ortodoxa. O Santo Príncipe Vladimir declarou em sua Carta que os médicos eram pessoas ligadas à Igreja, subordinadas ao bispo. Além disso, os monastérios prestavam assistência não apenas aos pobres, mas também aos doentes, incluindo aqueles “privados da razão”. O processo de separação da psiquiatria em relação à Igreja teve início apenas no final do século XVIII, quando os psiquiatras decidiram tornar-se mais “objetivos” e basear-se exclusivamente em dados provenientes de observações clínicas e laboratoriais.
Após outubro de 1917, o ser humano passou a ser reduzido à pura fisiologia — mera carne, sem qualquer indício da existência de uma alma. A psiquiatria passou a encarar a personalidade humana sob essa mesma perspectiva. No entanto, o termo “psique” significa “alma” em grego.
Atualmente, a espiritualidade volta a ser discutida no âmbito da psiquiatria. Clínicas estão criando capelas internas, oferecendo assistência espiritual aos pacientes e realizando conferências científicas e teológicas com a participação de membros do clero e psiquiatras.
“Por natureza” ou por causa do pecado?
—Como psiquiatra e crente, como o senhor avalia as causas da neurose, da depressão e de outros transtornos nervosos? Seria o estresse, o ritmo frenético de nossas vidas ou algo mais?
—Pode-se perguntar: a vida era realmente mais simples na época de Ivan, o Terrível? Ou em qualquer outra era, por exemplo, na era napoleônica? Claro que não. Mas seria desonesto da minha parte dizer que não somos afetados pela velocidade, pelo ritmo da vida. Existem até conceitos como “depressão por exaustão” e “neuroses informacionais”, mas esses são apenas o pano de fundo, o ambiente. O Arcipreste Dimitry Smirnov fez uma comparação notável do estado espiritual do homem moderno com um jarro que se despedaçou. Infelizmente, ele foi reduzido a um monte de cacos.
A psiquiatria, a psicoterapia e a psicologia não falam sobre o pecado. Mas o ponto principal a ser observado é o estado espiritual da pessoa, que não pode ser bom sem paz espiritual, sem uma consciência limpa e sem o esforço da pessoa para superar o orgulho, a vaidade e outras paixões pecaminosas.
—Então, os estados limítrofes são estados pecaminosos? Ou os transtornos mentais são um tipo de doença? Como devemos tratá-los e como podem ser curados?
— Estudo estados limítrofes há cerca de vinte anos e vejo que são doenças, mas, muitas vezes, doenças de natureza pecaminosa. Quando o pecado ocorre nas profundezas do espírito humano, ele desorganiza a vontade e as emoções. Há muito observo, em minha prática, que as neuroses e muitas formas de depressão (em particular, a depressão neurótica) têm raízes espirituais. E, a partir dessas raízes, surgem certas manifestações físicas. Afinal, o ser humano é uma combinação do espiritual, do mental e do físico. É assim que tudo se desdobra em uma hierarquia, passo a passo: espírito, alma e corpo.
Posso lhe dar um exemplo revelador. Certa vez, um paciente me procurou queixando-se de um transtorno neurótico. Durante a conversa, ele disse: “Doutor, se o senhor soubesse o quanto sou atormentado pela inveja! Ela está me corroendo por dentro! Afinal, invejo a todos — aqueles que têm um apartamento melhor, um emprego mais bem-sucedido, ganhos maiores. E isso pesa tanto sobre mim! Sinto como se estivesse queimando por dentro”.
Então, deveríamos dar a esse paciente um comprimido calmante três vezes ao dia? E dar o caso por encerrado, como se o problema estivesse resolvido? Isso seria totalmente errado. Nada acontecerá sem a compreensão de que ele está sob o domínio de paixões pecaminosas, sem arrependimento, sem um trabalho de transformação pessoal.
É necessário identificar as três causas principais no desenvolvimento de doenças mentais. As doenças mentais podem ser consequência de certos transtornos orgânicos no corpo — isto é, são doenças “de natureza” (ou constitucionais), de caráter hereditário ou associadas a fatores biológicos individuais. Entre elas estão a esquizofrenia, a psicose maníaco-depressiva, a psicose epiléptica e a psicose senil.
O termo “de natureza” foi introduzido por João Clímaco. Em suas obras, lemos que ele observou que, em alguns monges, certos estados de perturbação espiritual não desapareciam após a oração, o sinal da cruz ou a realização de Sacramentos da Igreja. Um exemplo notável encontra-se na vida do Venerável Teodósio das Cavernas de Kiev, que passou três anos cuidando de um monge que sofria do que hoje chamaríamos de catatonia.
Vejamos alguns exemplos. Um sintoma típico da esquizofrenia é o delírio (o delírio é uma conclusão falsa). É impossível tentar convencer racionalmente uma pessoa que sofre de delírios. Há também a psicose depressiva, associada a alterações nos neurotransmissores do tecido cerebral. Uma mãe pode dizer a um paciente nessa condição: “Ora, reaja, controle-se”. O paciente então começa a sentir-se ofendido, irritado e culpado — mas o que ele realmente precisa é de ajuda médica. Ocorre uma alteração no estado emocional no caso da epilepsia, quando o paciente manifesta comportamento agressivo, necessitando de assistência médica e tratamento ativo da doença.
O segundo grupo — um vasto grupo de transtornos mentais — é constituído por enfermidades decorrentes de paixões que escravizaram a alma.
O terceiro grupo consiste em enfermidades causadas por ataques demoníacos, provocadas por influência demoníaca.
Aqui, é importante não confundir as coisas. Deparei-me mais de uma vez com situações em que, digamos, um paciente está vivenciando o início da esquizofrenia — o começo de um processo psicótico — e seus familiares são fiéis praticantes. Então, decidem que não devem procurar um médico, mas sim buscar um exorcismo. Naturalmente, a oração é necessária, assim como a intercessão da Igreja e a bênção de um orientador espiritual. No entanto, isso é um erro, e há um perigo à espreita. É importante compreender que os transtornos mentais constituem, afinal, um grupo distinto de doenças.
Ao mesmo tempo, essas enfermidades podem ser uma cruz que o Senhor coloca sobre nós. Às vezes, presencio exemplos notáveis: uma pessoa parece sofrer de uma doença mental grave — mas como ela cresce espiritualmente nesse contexto! Lembro-me de um dos meus pacientes. Ele apresenta uma incapacidade moderada devido a uma doença mental e, como médico, tentei consolá-lo e tranquilizá-lo. Mas ele olhou para mim e disse: “Doutor, não faça isso. A situação em que me encontro é a mais salvífica para mim”. E, naturalmente, o caminho cristão não está fechado para tal pessoa, nem o Reino dos Céus lhe está vedado. Não; trata-se de um irmão nosso em Cristo que necessita de ajuda, oração, compaixão e apoio.
A depressão nem sempre significa desânimo
—Dmitry Alexandrovich, vamos examinar mais de perto a depressão. Quais são as suas características e como ela surge?
—Em alguns casos, a depressão é um transtorno doloroso. Isso ocorre porque, nas estruturas cerebrais, os níveis de neurotransmissores como serotonina, dopamina e noradrenalina caem para quase zero, e a pessoa vivencia um estado de espírito pessimista e deprimido. Ela fica inativa. Familiares e conhecidos tentam, de alguma forma, estimulá-la: dizem para procurar um emprego, para rezar mais. Mas a pessoa não consegue fazer isso, pois está doente. Na fase inicial, é necessária assistência médica — psiquiátrica e psicoterapêutica — e, à medida que a recuperação avança, o apoio psicológico e espiritual ganha maior relevância.
Há também depressões (e elas são muito mais numerosas; na verdade, constituem a vasta maioria) que surgem como consequência das paixões do desânimo e da tristeza que escravizaram a alma. Esse ponto é muito importante. É preciso distinguir — e isso vale também para o clero — entre pecado e doença.
De modo geral, a depressão tornou-se um dos principais problemas de saúde; há cerca de 500 milhões de pessoas em todo o mundo sofrendo de transtornos depressivos. O uso de medicamentos psicotrópicos e antidepressivos escapou ao controle dos profissionais de saúde e tornou-se incontrolável. Além disso, a depressão está atingindo pessoas cada vez mais jovens; hoje, fala-se até em depressão infantil.
— Às vezes, estados depressivos ou um colapso nervoso podem levar uma pessoa a pensar em suicídio. Que conselho você daria a alguém que esteja à beira do suicídio?
— Isso é muito sério… Mas eu aconselharia a pessoa a fazer o sinal da cruz com fé e dizer: “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim, pecador!” Depois, deve-se ir à igreja e, sem nada ocultar, expor sinceramente ao sacerdote todas as suas preocupações e angústias durante a Confissão. Se você precisa de primeiros socorros, é exatamente lá que os encontrará.
Falando sobre o problema do suicídio em geral, sabe-se que apenas dez por cento daqueles que cometem suicídio sofrem de doença mental. Noventa por cento são pessoas mentalmente saudáveis, mas profundamente feridas em seu espírito. E sabe quantas são? De trinta e nove a quarenta para cada 100.000 habitantes! Isso representa dezenas de milhares — uma cidade inteira de suicidas a cada ano! Estamos falando de suicídios consumados. Mas há também as tentativas de suicídio, e essas são muito mais numerosas.
Existem muitas doenças mentais em relação às quais precisamos adotar uma postura cristã e ortodoxa.
Neurose = conflito
—Quais são as características das neuroses?
—A neurose tem muitas raízes espirituais. Provavelmente — para resumir bastante —, a neurose é um choque entre o que se deseja e a realidade. E quanto mais intenso esse choque, mais forte é a manifestação da neurose. Trata-se sempre de um conflito interno. Às vezes, dou um exemplo assim: fecho os dois punhos, pressiono-os um contra o outro e pergunto ao paciente qual mão devo quebrar — a direita ou a esquerda? Ambas doem da mesma forma! Não há saída para esse beco sem saída.
Nesses casos, são necessárias humildade, paz interior e bondade. Conseguimos imaginar tal estado de aflição em São Serafim de Sarov, que saudava a todos com as palavras: “Minha alegria, Cristo ressuscitou!”? Um cristão ortodoxo pode estar doente, pobre ou sem-teto — tudo isso é vontade de Deus. Mas, com a disposição espiritual correta, na alma de um cristão ortodoxo “florescem rosas e cantam rouxinóis”. Essa é uma verdade indiscutível. Lembre-se das palavras do Salvador: “A minha paz vos dou!”
Pode-se sofrer de neurose por muito tempo até compreender as verdadeiras causas dos transtornos neuróticos, até perceber que são a própria percepção, o sistema de valores, as atitudes e certos estereótipos comportamentais incorretos os responsáveis pela doença. Uma filha não fala com a mãe há dez anos por causa de certos princípios; ela vive uma tensão interior terrível, sofre de dores de cabeça e tem a consciência perturbada… Mas qual é a solução? Aproximar-se da mãe, abraçá-la, beijá-la e pedir perdão — e tudo se resolverá. No entanto, as pessoas se recusam obstinadamente a ceder, acabando por adoecer ou sofrer ataques cardíacos. Afinal, sabe-se hoje que oitenta por cento de todas as doenças surgem do estresse.
Lembro-me de uma mulher que me escreveu uma carta: “Aqui estou eu, doente, e não entendo de forma alguma de que conflito entre o desejado e o real você está falando no caso das neuroses”. Respondi: “Minha cara (acho que o nome dela era Liudmila), Deus permitiu que você ficasse doente agora, e você está tão sobrecarregada com isso que quer ficar saudável a qualquer custo… Humildade! A humildade é o principal remédio”. Trilhar o caminho cristão em direção a Cristo — esse é o principal remédio para as neuroses.
“Não se faz seda com orelha de porco”
— E se uma pessoa estiver perdida? Talvez não tivesse fé, ou tenha acabado de começar a frequentar a igreja. Ela se viu encurralada — e está em uma depressão profunda, que dura anos, ou sofrendo de uma neurose. Ela consegue sair dessa sozinha? Ou ainda precisa de ajuda externa?
— É isso, de fato, que meus colegas e eu temos feito há muitos anos. Claro, o Senhor guia a todos nós. E Ele não abandonará essa pessoa, desde que ela ore, creia sinceramente e recorra aos Sacramentos da Igreja. Veja, os “Fundamentos da Concepção Social da Igreja Ortodoxa Russa” afirmam de forma bela que um psicoterapeuta ou psicólogo ortodoxo é um colaborador do clérigo. O encontro com ele muitas vezes precede o encontro com um sacerdote. E frequentemente pessoas vêm até mim sem estarem prontas para a Confissão, mas já possuem questões espirituais. Elas trazem essas questões durante as consultas, e tentamos resolvê-las. Claro, isso torna a vida mais fácil para essa pessoa, pois um psicólogo ortodoxo — ou alguém que frequenta a igreja há muito tempo e leu os Santos Padres — pode dar conselhos bons e benéficos.
— Alguns psicoterapeutas afirmam que, se uma criança desenvolve transtornos mentais ou complexos em decorrência de uma criação inadequada, eles se tornam praticamente incuráveis à medida que a criança cresce. Qual é o seu comentário, como médico e pessoa de fé?
—Talvez eu devesse começar respondendo à sua pergunta sob um ângulo diferente. O ladrão que passou a vida inteira roubando e matando, ao se encontrar na cruz, à direita do Salvador, nas últimas três horas de sua vida, arrependeu-se, mudou de conduta e foi o primeiro a entrar no paraíso. Portanto, em minha opinião, as alegações de que a dependência de drogas, o alcoolismo, certos transtornos neuróticos e as experiências da infância são incuráveis não correspondem à realidade. A meu ver, tais psicoterapeutas têm motivações mercenárias e querem manter o paciente preso a eles.
Tomemos, por exemplo, a psicanálise. Quando conversei com psicanalistas franceses e lhes perguntei: “Bem, qual é a eficácia dela?”, vi perplexidade e um sorriso em seus olhos; que eficácia? O cliente frequenta sessões de psicanálise por três, cinco ou sete anos. E um procedimento psicanalítico custa muito dinheiro, dura cerca de uma hora e ocorre duas ou três vezes por semana. Isso se transforma em um estilo de vida.
É claro que existe a questão do ponto de partida — “não se faz uma bolsa de seda com a orelha de uma porca”, como dizem às vezes. Se uma criança tem pais piedosos e está familiarizada com os Ssacramentos da Igreja, então, em geral, ela tem mais oportunidades — isto é, possui certas vantagens iniciais na vida. E, no entanto, enquanto a pessoa está viva, enquanto respira, o Senhor lhe dá uma chance de mudar, para a transformação e o renascimento.
A Ortodoxia não é algo que se possa assimilar simplesmente de passagem.
—O temor de Deus versus o medo como fobia: qual é a diferença?
— O temor de Deus traz paz e tranquilidade ao coração. O medo como fobia é um medo demoníaco. Quem é o mais neurótico? O diabo. E o medo incutido por ele gera precisamente esse estado no coração.
Em meus livros, comparo e contrasto o lamento arrependido pelos pecados com a autocrítica neurótica. O lamento arrependido pelos pecados gera paz, tranquilidade e alegria no coração. Mas a autocrítica neurótica é como moer água num almofariz, como correr em círculos: tristeza por tristeza e nada mais. Não traz nada de construtivo.
— Mas como uma pessoa pode distinguir um medo do outro?
— Para isso, é preciso estudar os Santos Padres. E a Ortodoxia não é algo que se assimila de passagem; não é algo que se aprende em cinco minutos. É preciso estudá-la, tentar viver de maneira cristã e frequentar a igreja. E, gradualmente, pouco a pouco, sua maneira de pensar se desenvolverá na direção certa.
“Esteja atento a si mesmo, para que a ira, a irritabilidade e o ressentimento não te dominem — pois, do contrário, levará uma vida conturbada e desordenada. Cultive, porém, a generosidade, a mansidão, a ausência de malícia e tudo o que convém aos cristãos, para que possa levar uma vida pacífica e serena.”
São Efrém, o Sírio
Dmitry Avdeev
tradução de monja Rebeca (Pereira)







