TODAS AS OUTRAS BÊNÇÃOS

Na vida da igreja, poucas palavras são, ao mesmo tempo, tão belas e tão delicadas quanto a palavra “bênção”. Uma bênção não é nem uma permissão em sentido administrativo, nem a garantia de que outra pessoa assumiu a responsabilidade por nossas vidas. Em seu sentido mais profundo, a bênção é um relacionamento enraizado na oração: a invocação da graça de Deus sobre uma pessoa — sobre seus esforços, seu ministério, sua trajetória e suas decisões. É precisamente por isso que chama a atenção quando uma palavra destinada a fortalecer alguém passa, gradualmente, a significar algo totalmente diferente: um mecanismo de controle.

O problema, portanto, não reside na bênção em si. O problema surge quando se desenvolve toda uma ideologia em torno disso, na qual cada passo dado por uma pessoa é avaliado com base em ser “abençoado” — não no sentido de estar em harmonia com a vida da Igreja, mas sim de ter recebido a aprovação prévia de alguém que exerce autoridade sobre ela. Nesse ponto, a fronteira entre a obediência eclesiástica e as preferências pessoais facilmente se torna difusa.

Isso é particularmente evidente entre pessoas cuja posição é instável e cujo sustento depende das decisões das autoridades eclesiásticas. Quando alguém sabe que seu contrato, emprego ou a possibilidade de continuar seu serviço pode depender de quão “obediente” é, a palavra “bênção” deixa de ter o mesmo significado. Ela deixa de ser apenas um conceito espiritual e assume um peso muito tangível — e, quanto mais “substituível” a pessoa for, maior se torna esse peso.

Em tal sistema, a obediência é facilmente equiparada ao silêncio. A integridade pode ser vista como desobediência; um questionamento, como insolência; a discordância, como falta de espírito eclesiástico; e uma decisão independente, como ausência de bênção. Com o tempo, a pessoa aprende a não perguntar o que é verdadeiro, bom e responsável, mas sim o que é seguro. Ela deixa de perguntar “Qual é a coisa certa a fazer?” e passa a perguntar “O que devo fazer para evitar problemas?”.

E essa não é uma diferença pequena.

Pois a obediência cristã jamais visou à destruição da pessoa. Pelo contrário, ela só faz sentido se conduzir o indivíduo à liberdade em relação ao seu próprio egoísmo, medo e vontade própria. A obediência que gera medo de outra pessoa não é a mesma que liberta o indivíduo de si mesmo. Aquela promove a maturidade; esta, a dependência. Uma ensina a responsabilidade, enquanto a outra ensina a depender daquele de quem se recebeu uma “bênção”.

Talvez resida aí um dos paradoxos mais difíceis. Uma pessoa pode ser condicionada, ao longo de anos, a nunca empreender nada significativo sem uma bênção e, ao mesmo tempo, espera-se que seja madura, capaz, proativa e responsável. No entanto, a maturidade não se constrói negando constantemente a alguém o espaço para tomar decisões. Uma pessoa torna-se responsável ao aprender a decidir, a cometer erros, a corrigi-los e a apresentar-se diante de Deus e dos outros para responder por suas ações.

É claro que o outro extremo também não é a solução. A vida da Igreja não pode ser um amontoado de caprichos individuais, onde cada um faz o que lhe parece correto. Existe ordem, existe a responsabilidade de bispos e padres, e existem funções nas quais o indivíduo não deve ser a medida de todas as coisas. No entanto, ordem não é o mesmo que medo, assim como obediência não é o mesmo que submissão inquestionável.

Uma autoridade saudável não precisa lembrar constantemente a pessoa de que ela é substituível. Na verdade, não precisa fazer isso de forma alguma. Sua autoridade não se baseia no poder de punir, mas na confiança que ela construiu. Uma bênção saudável não aprisiona a pessoa; pelo contrário, ela a envia para a vida com um maior senso de responsabilidade. Assim como uma autoridade sadia, ela não diz: “Você não vale nada sem mim”, mas sim: “Vá, faça o bem e saiba que estamos rezando por você”.

Cristo também não deixou aos apóstolos uma lista de permissões para cada situação futura; em vez disso, concedeu-lhes uma única e grande bênção e missão: “Ide e ensinai todas as nações”. Esse “ide” encerra uma confiança imensa — Cristo os envia ao mundo como indivíduos maduros e responsáveis; Ele não os mantém constantemente ao Seu lado, mas confia a eles — iluminados pelo Espírito Santo — a tarefa de discernir, por si mesmos, como realizar a obra que lhes foi confiada.

Talvez valha a pena, então, reconsiderar o que entendemos na Igreja quando falamos em “buscar uma bênção”. Estaremos, com isso, atraindo alguém para uma relação de comunhão e confiança, ou ensinando-o a submeter cada passo à aprovação de um superior? Estamos fomentando a consciência ou a dependência? Queremos colaboradores capazes de pensar, raciocinar e assumir responsabilidades, ou pessoas que aperfeiçoaram a habilidade de discernir o que se espera delas?

Esta questão não se dirige a bispos, padres, diretores de escola ou a qualquer outra pessoa que detenha responsabilidade. Muito pelo contrário. Quanto maior a autoridade que se exerce sobre outra pessoa, maior é a obrigação de não transformar essa autoridade em um meio de controle pessoal. E quanto mais sagrado for um conceito, com mais cuidado devemos protegê-lo contra abusos.

“Bênção” é uma palavra grandiosa demais para se tornar sinônimo de permissão de um superior. É eclesiástica demais para servir de instrumento para disciplinar uma independência indesejada. E é sagrada demais para ser proferida de modo a deixar transparecer uma ameaça implícita: se você não for obediente, outra pessoa ocupará o seu lugar.

Talvez, então, devêssemos retornar ao próprio início. A primeira bênção que o homem recebe de Deus não é uma bênção para permanecer pequeno, medroso e ensimesmado, mas sim: “Sede fecundos, multiplicai-vos e enchei a terra”. Essa bênção já contém um chamado ao crescimento, à fecundidade, a sair de si mesmo e a participar do mundo como uma esfera de responsabilidade. Adão — e, por meio dele, todo ser humano — não foi abençoado para deixar de pensar, renunciar à sua individualidade ou reduzir a vida a buscar permissão para cada passo. Ele foi abençoado para crescer, amadurecer e dar frutos. Portanto, a Igreja só pode ser verdadeiramente um lugar de crescimento quando não se torna um espaço de inúmeras “bênçãos” pessoais — por meio das quais algumas pessoas mantêm outras em um estado de dependência —, mas sim uma comunidade que constantemente nos reconduz àquela bênção única e primordial que provém do Pai Celeste.


Ostoja D. Puhač
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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