Uma das melhores maneiras de realizar praticamente qualquer coisa é contar com o apoio de outras pessoas. Isso vale para qualquer empreendimento que valha a pena, do mais simples ao mais grandioso. Portanto, não deve causar grande surpresa ler e compreender o relato de Lucas 5. Nosso Senhor, desejando salvar o mundo — o maior de todos os empreendimentos! —, busca o apoio de Seus primeiros discípulos. Geralmente, referimo-nos a essa passagem como “Pescadores de Homens”. Na linguagem do mundo corporativo americano, poderíamos chamá-la de “Fase Um do Plano Estratégico de Cristo”.

Nosso Senhor estava pregando em Sua terra natal quando pôs em prática essa fase. Ao aproximar-Se do Mar da Galileia, observou alguns pescadores, visivelmente frustrados, trazendo seus barcos de volta à margem. Entre eles estavam dois pares de irmãos: Pedro e André, e Tiago e João. Foi com esses pescadores simples que nosso Senhor começou a implementar Seu plano. Ele usou um dos barcos como púlpito. Em seguida, pediu a Simão que fosse para o meio do lago — a parte mais profunda — e lançasse novamente as redes. Simão, embora talvez tenha se sentido ofendido a princípio com tal sugestão, obedeceu ao Senhor. E eis que a pesca foi tão abundante que as redes começaram a romper-se; foi preciso chamar outro barco, e ambos começaram a afundar devido ao peso excessivo dos peixes capturados.

Simão não conseguia acreditar no que via! Imediatamente, prostrou-se humildemente diante do Senhor, dizendo-Lhe, em essência, que ele (Simão) não era digno de ser agraciado com um poder tão grandioso e onipotente. Mas Jesus lhe disse: “Não temas; de agora em diante, pescarás homens”. E a leitura conclui: “tendo trazido os barcos para terra, deixaram tudo e O seguiram”. Missão cumprida! A Fase Um do plano de Cristo estava concluída. Ele havia conseguido o apoio de outras pessoas — apóstolos que serviriam como Seus embaixadores nas fases subsequentes de Seu Plano Divino para a salvação do mundo.

Observemos aqui alguns pontos específicos que dizem respeito a todos nós, enquanto apóstolos de Cristo. Em primeiro lugar, nosso Senhor chama os pescadores enquanto estão “em pleno trabalho”. Eles estão exercendo sua atividade para garantir o sustento! Há sabedoria nisso para nós. Cristo quer trabalhadores como Seus discípulos. Aqueles propensos à ociosidade ou à preguiça não servem para essa missão! Ele precisa estar cercado por aqueles que São Paulo chama de “cooperadores” Seus. Muitos afirmam que um dos maiores obstáculos ao crescimento da Igreja hoje são os “cristãos de banco” — aqueles que comparecem à Liturgia dominical, mas não rezam nem trabalham pelo Reino de Cristo depois que saem. Cristo chama trabalhadores!

Em seguida, notemos a humildade e a obediência dos pescadores. Essas são qualidades essenciais para os cooperadores de Cristo. Quando Cristo disse a Simão para ir ao meio do lago — depois de uma noite inteira sem pescar absolutamente nada —, Simão poderia muito bem ter recusado o pedido e dito algo como: “Quem você pensa que é para ensinar a mim, um pescador profissional, como se pesca?!” No entanto, ele obedeceu a Cristo. Eis uma lição de fé para nós! Independentemente de nossa experiência de vida, devemos exercer a obediência na fé, mesmo que isso pareça, aos olhos do mundo, insensatez, fanatismo, algo antiquado ou irrelevante. A fé implica uma humildade que aceita e abraça as ordens de Deus e age em conformidade com elas.

Igualmente importante é o elemento simbólico que pode ser resumido em uma palavra: evangelização — o esforço determinado e intencional de viver com alegria e compartilhar a Boa Nova de Cristo! Isso está no cerne da ordem de Cristo a Simão: “Avança para águas mais profundas e lança as redes”.

Historicamente, isso se referia aos judeus e aos gentios. Os judeus eram aqueles “perto da margem” que, contando com o benefício de todo o Antigo Testamento, deveriam ser facilmente “capturados” na rede de Cristo. Eram os gentios que estavam “em águas profundas” — aqueles que precisariam ser persuadidos e convencidos do amor de Deus por meio da pessoa de Jesus Cristo e de Seus colaboradores!

Esse significado simbólico precisa ser atualizado, pois representa um desafio evangelístico que confronta toda a Igreja até hoje. Por exemplo, a maioria — se não todas — das nossas “redes paroquiais” tem obtido sucesso em “capturar aqueles próximos à margem”. Pela graça de Deus, acolhemos em nosso meio inúmeras almas que não tinham contato ou familiaridade prévia com a Igreja Ortodoxa, mas que corajosamente se aventuram em nossos templos e acabam sendo “fisgadas” (cada vez mais, hoje em dia, depois de terem feito sua própria pesquisa na internet antes de se arriscarem a dar o primeiro passo!). Não precisamos fazer muita “pescaria” para capturá-los. Na maioria dos casos, tudo o que precisamos fazer é “lançar a rede”, oferecer a oportunidade e disponibilizar as instalações, a beleza e o ambiente da Igreja — e eles vêm!

Mas, assim como o nosso Senhor instruiu os apóstolos, Ele também nos instrui: “Avancem para águas profundas”. Isso significa: não se contentem apenas com aqueles que podem ser facilmente “capturados”. Avancem — em direção às comunidades e aos bairros que nos cercam, às famílias despedaçadas e às vidas quebrantadas daqueles que mal conhecemos; lancem-se a relacionamentos com pessoas que precisam ser persuadidas e convencidas do amor, da misericórdia e da cura de Deus por meio da nossa “pescaria”.

Graças a Deus, muitas paróquias têm obtido certo êxito neste desafio de “ir pescar… homens!” Mas cada um de nós, batizado em Cristo e nutrido pelos Santos Sacramentos, deve aceitar esse desafio pessoalmente! Cada um de nós deve honrar os compromissos que assumiu diante de Deus e de Sua Igreja em algum momento da vida. Consideremos a profissão de fé que os convertidos proclamam no rito de sua recepção na Igreja: “Esta verdadeira fé da Santa Igreja Ortodoxa, que agora confesso voluntariamente e verdadeiramente professo, eu a manterei e confessarei com firmeza, íntegra e inalterada, até o meu último suspiro, com o auxílio de Deus. E eu a ensinarei e proclamarei, na medida de minhas possibilidades. E me empenharei em cumprir suas obrigações com zelo e alegria, preservando meu coração na pureza e nas boas obras.”

É em conformidade com essa profissão solene que cada um de nós, em comunhão com Cristo e Sua Igreja, deve agir! Todos nós devemos ser “pescadores de homens”! Sim, nosso Senhor continua sendo o Líder principal em Seu plano estratégico para a salvação do mundo. Mas, sempre que nos reunimos como Seu Corpo — a Igreja —, somos lembrados de que Ele espera que sejamos Seus embaixadores dedicados e trabalhadores incansáveis ​​— pescadores humildes e obedientes — para ajudar a executar Seu Plano: realizar uma grande pesca para o Reino e a glória de Deus!


Arcipreste Daniel Kovalak
tradução de monja Rebeca (Pereira)

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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