Uma palestra sobre o Salmo 118
Por que isso acontece comigo? Tantas adversidades, tanto tormento, tantas vicissitudes? Por que nada na minha vida dá certo? Por que tudo vai mal para mim? Não fiz uma única coisa que tenha saído como deveria! Tudo está dando errado! E o Ancião falou assim:
“Todas as portas estavam fechadas, e nenhuma porta sequer se abriu diante de mim.”
E a pessoa ofega — é natural, é humano. Você ofega sob o peso desta pergunta: “Por que eu, logo eu?” No entanto, a pergunta “Por que?” não tem resposta — ou, pelo menos, não a resposta que você deseja. Pois Deus lhe responde com o silêncio, para que você compreenda a necessidade de se acalmar e encontrar a paz; e, quando você entrega tudo nas mãos de Deus — quando, apesar de estar completamente exausto com tudo isso, consegue se deixar envolver pelo abraço de Deus e a ele se agarrar —, então você entenderá por que tudo isso aconteceu. Então, Deus lhe responderá.
Você se lembra do exemplo do Ancião Efrém de Katunakia? Esse Ancião foi noviço sob a orientação de um Ancião muito severo— um homem difícil e propenso a encontrar defeitos. Durante quarenta e dois anos no deserto, ele praticou a obediência a esse tirano — um homem de temperamento muito áspero — e manteve total submissão. Ele se resguardava para jamais julgar o Ancião ou agir contra ele.
Muitas vezes, sentia-se sufocado pelos próprios pensamentos e dizia a si mesmo: “Chega, não aguento mais; vou embora daqui, vou partir, vou para outro lugar! É impossível viver com ele nestas condições!” Contudo, sempre que decidia partir e declarava: “Vou embora — é uma decisão definitiva!”, Deus se afastava dele e ele — sendo um homem portador de Deus — via a graça se retirar de si. Nada mudou para melhor; ainda assim, ele voltava, chorando e implorando o perdão de Deus por ter ousado fugir, por ter abandonado a obediência e deixado aquele lugar.
Passaram-se quarenta e dois anos, mas ele continuava a rezar, buscando compreender o que deveria fazer em tal situação. Perto do fim, seu Ancião perdeu a razão e tornou-se absolutamente insuportável. A vida do Ancião Efrém transformou-se em um verdadeiro tormento. No final, porém, seu Ancião faleceu. Os ritos fúnebres começaram e — como é costume na Sagrada Montanha — antes que o corpo fosse depositado no caixão, Abba Efrém aproximou-se para receber uma última bênção de seu Ancião e beijá-lo na morte, antes do sepultamento. E, no exato momento em que se curvou diante de seu Ancião para receber uma bênção, Deus lhe respondeu por meio do Espírito Santo: “Foi vontade de Deus que você fizesse o que fez, permanecendo como noviço sob os cuidados deste homem durante quarenta e dois anos!”
Naquele instante, ele recebeu essa revelação espiritual da própria parte de Deus. E ele mesmo relata como respondeu a Deus, em estado de graça: “Estás me dizendo isso agora? Agora que o Ancião faleceu e está sendo colocado no caixão? Por que não me disseste isso durante todos esses anos? Por que me deixaste lá por quarenta e dois anos?”
Ele foi para o Monte Athos aos vinte anos e tinha sessenta e dois quando o Ancião faleceu. Quarenta e dois anos completos — chegou à Santa Montanha jovem e lá envelheceu, cumprindo aquela obediência que era uma forma de martírio.
“Que sentido isso tem para mim agora que ele morreu?” E Deus lhe respondeu: “Se você tivesse partido [antes], teria se destruído!” Foi assim que Deus lhe respondeu.
É claro que o que lhe digo não é exatamente algo que inspire, e, naturalmente, não estamos à altura deles. Anciãos assim não surgem todos os dias. Não imagine que o Ancião Sofrônio, o Abba Efrém ou aqueles grandes anciãos, cujas vidas conhecemos por meio de relatos, levaram vidas serenas. Pelo contrário, suas vidas foram um tormento — repletas, dia após dia, de labuta, dor, tristeza, lágrimas, suor e luta. Esses homens não conheceram descanso em suas vidas. Tampouco seus empreendimentos correram sempre como eles teriam desejado; contudo, o que aos olhos humanos parecia perda e humilhação era, aos olhos de Deus, a glória deles.
No final das contas, eles foram glorificados por Deus porque percorreram esse caminho de ignomínia, paciência, fé, renúncia ao conforto e confiança somente em Deus — e em mais ninguém. Em última análise, esta é a mensagem de Deus que permeia tudo isso: “Não deposite sua esperança em nada além de Deus! Que a sua esperança esteja n’Ele, e somente n’Ele você encontrará conforto e graça.”
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Continuemos com o texto do salmo: “Por isso, amo os Teus mandamentos mais do que o ouro, sim, mais do que o ouro fino” (Sl 118:127).
Em tudo isso, descobri que os Teus mandamentos são mais preciosos do que qualquer outra coisa neste mundo — mais do que ouro, pérolas ou diamantes. As coisas mais preciosas são Tu, os Teus mandamentos e a Tua palavra. Por isso, passei a amar-Te acima de tudo, não considerando mais nada digno de amor, e descobri que o Teu amor supera qualquer outro amor neste mundo.
Reconheço que todos os Teus preceitos são retos; odeio todo caminho de falsidade. Os Teus testemunhos são maravilhosos; por isso, a minha alma os guarda (Sl 118:128–129).
É como entrar em uma loja e ver coisas excelentes e notáveis — você gosta delas, então permanece ali examinando-as uma a uma, dedicando todo o seu tempo a isso, pois são tão preciosas e impressionantes. Não é assim a pessoa que, de repente, abriu os olhos da alma, contemplou as obras maravilhosas de Deus e refletiu sobre elas?
Veja, até mesmo o Antigo Testamento — e não apenas o Evangelho — é a Palavra de Deus, e o Espírito Santo de Deus louva aquele que investiga; em parte alguma está escrito: “Creia e não investigue!” Pelo contrário, devemos investigar as obras maravilhosas de Deus. Como o Profeta David diz tão belamente neste salmo: “Com grande admiração, espanto e anseio, eu as rastreei e investiguei; descobri e contemplei quão admiráveis e preciosas são as obras maravilhosas de Deus”.
A revelação das Tuas palavras traz luz; dá entendimento aos simples. Abro a boca e suspiro, pois anseio pelos Teus mandamentos (Sl 118:130–131).
Recordemos aqui as palavras de Cristo: “Portanto, gravai isto em vossos corações: não premediteis como haveis de responder; pois Eu vos darei palavras e sabedoria às quais nenhum dos vossos adversários poderá resistir ou contradizer” (Lucas 21,14-15). Não digas a ti mesmo: “Vou sentar-me e pensar em como responderei a esta pergunta que me farão”. Nada disso! Cristo nos diz para não fazer nada e ir sem qualquer preparação. Por quê? Porque, naquela hora, o Espírito Santo vos ensinará o que dizer. É como se Cristo estivesse dizendo:
— Se você se sentar para se preparar, vai estragar tudo; não dirá as coisas da maneira certa! Deixe as coisas como estão, confie em Deus, e o Espírito Santo o iluminará sobre o que dizer.
Caso contrário, se responder de maneira meramente humana, poderá até dizer algo bom, mas faltará o poder da Palavra de Deus. Em outras palavras: abri a boca e ela foi imediatamente preenchida pelo Espírito Santo; assim, respondi e disse o que precisava ser dito.
Veja bem, dizemos muitas coisas, mas nada resulta disso. Mas, quando um homem de Deus fala — e, digamos, cinquenta pessoas estão ouvindo —, cada uma delas diz:
“Sabe, o que ele disse… ele disse especificamente para mim!”
“Não!”, diz outro. “Ele disse para mim.”
“Mas ele estava falando de mim!”
“Não, de mim!…”
Todos pensam que o homem de Deus estava falando a respeito deles, mas não é esse o caso; na verdade, é o Espírito Santo quem capacita cada pessoa a compreender o que precisa compreender naquele momento.
Certa vez, ouvi pessoas que haviam ido visitar um homem virtuoso dizerem: “Fomos lá, mas ele falou abertamente sobre o que estávamos pensando, e nós nos ofendemos.”
Naquele momento, o Ancião não tinha tal intenção; ele simplesmente abriu os lábios e proferiu cinco palavras que Deus o inspirara a dizer. Contudo, aquelas cinco palavras eram exatamente o que cada pessoa precisava, e elas receberam precisamente o que lhes era necessário — tal como os hebreus que comiam o maná: era o mesmo para todos, mas, para cada indivíduo, tornava-se aquilo de que necessitava.
O mesmo ocorre com a Sagrada Comunhão. Como é maravilhosamente expresso em uma parte da Sagrada Liturgia:
“Segundo a necessidade de cada um” — rezamos ao Senhor para que a comunhão do Santo Corpo e Sangue do Senhor se torne, para todos, precisamente aquilo de que necessitam. Que ela supra a necessidade daqueles que passam por privações. Que seja luz para os que precisam de esclarecimento e amparo para os enfermos. Que Deus se torne, para cada pessoa, exatamente aquilo de que ela precisa. É assim que Deus age; é assim que a Palavra de Deus age.
Em outras palavras, entregue-se às mãos de Deus assim como uma criança se entrega ao abraço da mãe. Não afaste Deus de si, não golpeie o Deus que o mantém em Seu abraço — para que você não venha a ouvir as mesmas palavras ouvidas pelo Santo Apóstolo Paulo, a quem Deus manteve em Seu abraço mesmo enquanto ele perseguia os cristãos.
É extremamente doloroso chutar pregos com os calcanhares desprotegidos. Consegue imaginar alguém chutando uma aguilhada com os pés descalços? Existe dor ou loucura pior do que essa? Não é assim que se deve viver. É difícil resistir ao amor de Deus — afastar Deus de si — quando Ele o mantém em Seu abraço.
Aprenda, então, a permanecer no abraço de Deus. Quando você compreender isso e se humilhar, encontrará paz e serenidade; respirará profundamente e se entregará ao grande amor e à paz que a presença de Deus concede a uma pessoa.
Metropolita Atanasios de Limassol
tradução de monja Rebeca (Pereira)






