Mateus 8:5–13
O Deus grandioso e inacessível desceu à terra em Cristo Jesus e tornou-se próximo e acessível a nós. Ele entrava nas casas das pessoas, comia com elas, tocava-as, e elas O tocavam — até mesmo a orla de Suas vestes. Por meio dessa comunhão com o Homem visível, elas recebiam auxílio cheio de graça do Deus invisível.
E, quando o Senhor ascendeu aos céus, não retirou a possibilidade dessa comunhão simples com Ele. Ele prometeu que estaria sempre presente onde quer que dois ou três estivessem reunidos em Seu Nome. Assim, podemos escrever os nomes de nossos entes queridos, vivos ou falecidos, para serem lembrados diante do Santo Altar. Participamos da *prósfora*, do óleo santo e da água benta, que o Senhor santificou e dotou de Sua graça. Celebramos *molebens* diante de Seu santo ícone e recebemos a bênção do sacerdote. Contudo, devemos sempre lembrar que o próprio Deus está aqui, bem perto de nós, estendendo Sua mão invisível para nos ajudar. Embora Ele tenha estabelecido toda a ordem de graça da Igreja para o nosso bem, Ele mesmo não necessita de meios visíveis para vir em nosso auxílio. Ele não exige sequer uma palavra falada — o nosso próprio desejo é suficiente. Nunca devemos esquecer isso, especialmente porque o Cristianismo floresce em nossa terra há mais de mil anos.
No Evangelho de hoje, porém, deparamo-nos com o exemplo de um homem criado em um país onde o paganismo florescera por mais de mil anos. Tratava-se do centurião romano. Ele veio a Jesus e, sem sequer fazer um pedido, disse simplesmente: “Senhor, o meu servo jaz em casa, paralítico e sofrendo terríveis tormentos”.
O Senhor imediatamente manifestou Sua disposição de ir, mas o centurião respondeu: “Senhor, não sou digno de que entres em minha casa; mas dize apenas uma palavra, e o meu servo será curado. Pois também eu sou homem sujeito à autoridade, tendo soldados sob o meu comando; e digo a um: ‘Vai’, e ele vai; a outro: ‘Vem’, e ele vem; e ao meu servo: ‘Faz isto’, e ele o faz”. O Senhor maravilhou-Se ao encontrar tamanha fé em um homem a quem nunca fora ensinada a verdadeira adoração a Deus, e disse aos que O cercavam: “Em verdade vos digo que não encontrei tamanha fé, nem mesmo em Israel. E digo-vos que muitos virão do oriente e do ocidente e se sentarão… no Reino dos Céus; mas os filhos do reino serão lançados nas trevas exteriores: ali haverá choro e ranger de dentes.”
Essas palavras foram ditas a respeito dos fariseus, que haviam se tornado tão absorvidos por suas inúmeras prescrições legais que se esqueceram do próprio Deus vivo.
No entanto, essas mesmas palavras do Senhor poderiam também ser dirigidas a nós, se perdêssemos de vista o Deus vivo em meio ao esplendor de nossas igrejas, à beleza dos Serviços Divinos e à abundância das coisas santas.
Recordo-me de um dia de festa paroquial. Após a Divina Liturgia matutina, realizou-se o rito da Bênção das Águas. Houve empurra-empurra e gritaria; mesas foram derrubadas e quebradas no meio da multidão. Por fim, toda a água benta havia sido levada, e tudo se acalmou. Então, chegou uma senhora idosa. Ela caminhou até um radiador, abriu a válvula, encheu seu pequeno recipiente com água e disse: “Bem, mal consegui chegar a tempo. Perdi a bênção das águas, mas pelo menos levarei um pouco de água daqui — afinal, é da casa de Deus.”
E quem poderia duvidar de que o Senhor a recompensou segundo a sua fé? Certamente, Ele lhe concedeu muito mais do que àqueles que, em meio à desordem e às contendas, conseguiram levar consigo a água abençoada segundo o rito completo.
É claro que isso não significa que, para a salvação, baste simplesmente rezar em casa e tirar água da torneira. Desprezar as coisas santas ou o sacerdócio instituído por Deus não seria diferente de desprezar a própria humanidade de Jesus Cristo. Tanto o centurião quanto a idosa fizeram tudo o que podiam para encontrar Jesus Cristo e aproximar-se d’Ele. Mas ambos também se lembraram de que haviam vindo Àquele que é maior do que o Templo, maior do que qualquer rito, maior do que tudo o que é visível e invisível.
A Sua palavra pode atravessar qualquer distância e qualquer muro. Pode curar instantaneamente qualquer enfermidade e livrar-nos de qualquer aflição. Pode santificar todas as águas da terra — ou transformá-las em sangue. Num único instante, pode destruir a terra e criá-la novamente.
Tal é o nosso Deus. Rendamos-Lhe, pois, a glória, a honra e a adoração que Lhe são devidas.
Metropolia de Moscou do Patriarcado da Igreja Russa
tradução de monja Rebeca (Pereira)








