Faz cerca de um mês, em nosso grupo do Telegram surgiu uma pergunta se tal ícone (cuja imagem foi enviada) era “legítimo”… Houveram colocações bem mal fundamentadas e muito ponto de vista próprio. Esperei para reagir… esperei para ver até onde tudo isso ia conduzir e tentar perceber como o brasileiro que está conhecendo a Ortodoxia reage a tal situação.
A imagem em questão era do célebre hierarca Cesário de Arles, representada de forma bizantina, mas não segundo os Cânones da Igreja Ortodoxa. Vale lembrar que São Cesário data do século quinto. Outra informação que gostaria de colocar é que o Sétimo Concílio Ecumênico, que afirma o lugar do ícone da Igreja Cristã, data do século oitavo. Ambas as informações coincidem com o período em que o Cristianismo ainda era indiviso.
O quê quero dizer com isso? Quero dizer que o ícone tem seu lugar tanto na Igreja Ortodoxa como na Igreja Católico-Romana, a nível canônico. É claro que o contexto, o valor dogmático e os próprios cânones para a escritura de ícones são colossalmente distintos junto aos ortodoxos e os católico-romanos.
A imagem em questão representava São Cesário de Arles em vestimentas católico-romanas, mas a maneira como o ícone estava pintado era totalmente bizantino… o que soou super estranho. A pergunta se ele era legítimo fica difícil de responder… legítimo para quem? Para os cristãos ortodoxos, existem cânones para representar os hierarcas que não coincidem com as vestimentas ali representadas. No entanto, o grupo do Telegram conta com participantes de outras Confissões de fé.
O quê mais me chamou atenção foi a maneira como muitos dos ortodoxos ou catecúmenos ou buscadores se expressam em relação a tudo que não é ou parece ser legitimamente ortodoxo. O cumprimento da Lei (escrito nos dois primeiros Mandamentos) é justamente o amor a Deus e ao próximo. Esta atitude é bastante imatura e, com muito pesar afirmo, é muito comum no Brasil e em locais em que a Igreja Ortodoxa vem ganhando território. Existe um grande equívoco com uma projeção de Ortodoxia e elitismo da Verdade… isto é perigoso e prejudica qualquer crescimento espiritual.
Fazem uns 4-5 anos participei de uma excursão na Eparquia do Oeste da Belarússia. No museu da Eparquia haviam ícones ortodoxos meio “diferentes” a meu gosto… meio “catolizados”, por assim dizer. O guia e professor de História da Arte nos deu uma aula sobre a Escola Belarussa de Iconografia. Sem falar que logo depois vimos ícones “legitimamente” ortodoxos em uma capela uniata próxima à Polônia. Sem falar de inúmeras “aberrações” dentro dos cânones iconográficos da Igreja Ortodoxa que vemos tanto na Grécia como na Sérvia, Rússia, outras Igrejas “organicamente” ortodoxas e até mesmo no famoso Monte Athos, representando o Deus Pai, por exemplo. Isso porque vivemos no tempo… existem períodos de auge e de decadência, mas a graça de Deus sabe agir onde, quando e como quer… esta é o maior tesouro que um cristão ortodoxo pode ter – confiança na ação do Espírito Santo apesar de todas as incapacidades e imperfeições humanas. A maioria dos ícones miraculosos na Rússia, por exemplo, são pinturas a óleo barrocas, super realistas! Mas realizam milagres… ajudam as pessoas a se arrependerem e encontrarem o caminho de volta à morada do Pai…
Gostaria de lembrar também que o trabalho do Aurora Ortodoxia, tanto o site como o Grupo do Telegram, Instragram e YouTube é um esforço pessoal. Não é um trabalho de uma Eparquia, por exemplo. Os textos, os autores o material em geral está vinculado com a linha de formação espiritual que particularmente tenho. Dentro da Igreja Ortodoxa, o diapasão de liberdade de escolas e linhas de pensamento é bastante amplo… e isto sempre foi… por isso, gostaria de pedir, gentilmente, que tivéssemos mais consideração antes de colocar o ponto de vista pessoal e insistir mediante o material publicado.
Agradeço de antemão a compreensão.
monja Rebeca (Pereira)







