Introdução ao Mundo Ortodoxo
“No verão de 1975, com o objetivo de dar aos peregrinos do mosteiro uma fundação na Ortodoxia, os Padres Serafim e Herman realizaram um curso de três semanas, intitulando-o de ‘Nova Academia Teológica de Valaam’. Serafim fez uma série de palestras sobre o desenvolvimento do pensamento ocidental desde o Grande Cisma até o presente. […] Ele chamou sua série de palestras de ‘Curso de Sobrevivência’ por acreditar que, para que as pessoas sobrevivam como Cristãos Ortodoxos hoje em dia, elas precisam entender a apostasia, saber por que e como a sociedade ocidental moderna se afastou da cosmovisão cristã tradicional. Uma vez que os Cristãos Ortodoxos são capazes de identificar as raízes filosóficas da era moderna, Pe. Serafim acreditava que eles poderiam mais facilmente discernir o que na sociedade é potencialmente benéfico para a alma, e podem proteger-se e defender-se melhor do que é prejudicial. Com isso em mente, ele também chamou suas aulas de ‘um curso de autodefesa Ortodoxa’.”
– Hieromonge Damasceno (Christensen) Genesis, Creation, and Early Man
Nota do tradutor: O texto a seguir é uma transcrição do áudio das palestras. A versão original em inglês não havia sido revisada pelo autor, por isso o texto está em um formato um pouco diferente do que seria uma obra publicada formalmente.
Em Busca da Verdade num Mundo de Vozes Conflitantes
Este curso tem como objetivo proporcionar uma perspectiva sobre os acontecimentos que ocorrem no mundo atual e com os quais nos deparamos em nossa experiência cotidiana, cada um deles com um fundo filosófico. Se alguém for a qualquer grande cidade, descobrirá que existem igrejas de todos os tipos e que todas oferecem uma visão diferente, uma doutrina diferente. Os católicos dirão uma coisa, e os mórmons dirão outra; os Adventistas do Sétimo Dia dirão algo bem definido; os fundamentalistas dirão outra coisa; os protestantes liberais apresentarão outra corrente; os teosofistas dirão algo diferente. E uma pessoa em busca da verdade vai talvez de uma para a outra procurando a verdade. Muitas vezes as pessoas descobrem: “Aha, encontrei!” — algo faz sentido. Elas descobrem que o mormonismo tem a resposta; ou então ficam muito impressionadas com um orador que sabe como se conectar com, bem, as pessoas de hoje.
Havia um, por exemplo, Alan Watts, que faleceu recentemente. Eu fui aluno dele. Na verdade, fiquei extremamente impressionado porque eu era um estudante de graduação em busca de algum tipo de verdade na filosofia, sem conseguir encontrá-la. Eu estava muito entediado com a filosofia ocidental, e de repente ele aparece e dá uma palestra sobre o budismo zen. E [pensei] que essa era a resposta, porque não é uma filosofia; é simplesmente como as coisas são. Ele disse que não se trata de olhar para o copo de água e defini-lo, mas — e ele pega o copo de água e o despeja no palco, de forma muito dramática — isso é o que é o budismo zen, é a resposta; é “ISSO”.
É claro que, com o passar dos anos, podemos ver que esse pobre homem é simplesmente um homem muito astuto. Ele estava muito em sintonia com a maneira como as pessoas pensavam; e ele encontrou uma espécie de caminho, seguiu-o até o fim e construiu sua carreira com isso, ganhou muito dinheiro, conquistou seguidores; e simplesmente os ensinou. Havia muitas coisas que ele dizia que eram verdadeiras, especialmente a parte negativa sobre o que há de errado com a civilização contemporânea. Mas, no fim das contas, ele apenas lhes deu um pedacinho lamentável da verdade combinado com muitas de suas próprias opiniões e, no fim, um grande sistema de mentiras; e ele destruiu almas, incluindo a sua própria, sem dúvida.
Mas a Ortodoxia não é como uma dessas correntes, desses sistemas de pensamento; não é simplesmente uma entre tantas. E é por isso que alguns podem pensar, especialmente os recém-convertidos dirão: “Por que nunca ouvi falar da Ortodoxia antes? Por que ela não aparece na televisão? Por que não consigo ouvir falar dela? Por que não há programas de rádio, artigos de jornal e tudo mais?”
Bem, se você olhar para os artigos de jornal que existem sobre a Ortodoxia, que apareciam ocasionalmente — como quando os ícones lacrimosos chegaram a algumas cidades, havia artigos; ou, até mesmo quando o Arcebispo John faleceu em São Francisco, houve um artigo, vários tipos de eventos que se destacam tornam-se parte da história, todo o evento na cidade, e veja que tipo de artigos de jornal são escritos — a visão da Ortodoxia ali é adaptada aos leitores. Ou seja, esta é uma seita que é muito colorida; é como os mórmons ou os Adventistas do Sétimo Dia ou algo do tipo. É diferente, é colorida. E se você ler as descrições das celebrações da Páscoa, elas sempre dirão algo como: “Em meio a nuvens de incenso, vestes esvoaçantes e longas barbas”, e tudo o que é exótico e diferente do que o americano comum vê; é mais ou menos isso que a Ortodoxia representa para eles. Ou seja, nessa perspectiva, a Ortodoxia é uma espécie de filosofia cristã que se caracteriza principalmente por algum tipo de exotismo. Se você quer o exótico, vai até lá. Mas isso não é o que a Ortodoxia é.
A Mentalidade Sectária
Se você se dedicar de corpo e alma a um desses ensinamentos — sejam eles cristãos ou não cristãos —, receberá da sua seita — pois todas elas são seitas, incluindo o catolicismo romano —, receberá da sua seita o que eles provavelmente consideram uma filosofia de vida; eles lhe darão respostas para muitas perguntas. Eles lhe darão respostas que você aceitará se estiver na mesma sintonia que eles — geralmente isso depende de sua formação, de suas buscas psicológicas, do nível de educação que você recebeu. Há todo tipo de fatores que entram em jogo, que fazem com que você se identifique, responda a essa seita específica.
Quando você entrega seu coração e sua alma ali, ou pelo menos parte deles, você começa a aceitar tudo o que lhe ensinam e a moldar-se com base nisso. E então, quando alguém vem até você e pergunta por que você acredita, você dá respostas da maneira como as aprendeu. E uma pessoa de fora vai olhar para essas respostas e ficar surpresa com o fato de alguém poder dar tais respostas. É óbvio que elas seguem uma “linha partidária”. Eles vão citar as Escrituras para você de acordo com uma interpretação que parece muito rebuscada, e vão achar que isso é lógico, a explicação comum. Converse com os Adventistas do Sétimo Dia, que são nossos vizinhos aqui, e comece a perguntar-lhes no que acreditam e por que acreditam, e descobre-se que o mandamento sobre o sábado é o mais importante de todos os mandamentos, aquele que distingue o verdadeiro povo, a verdadeira igreja, de todos os outros. Como eles podem entender isso, e como podem explicar o fato de que Cristo sempre aparece no domingo, o primeiro dia da semana? Ele ressuscitou dos mortos no domingo. Após a Sua Ressurreição era de madrugada no domingo — como é que a Igreja não acreditaria nisso por dois mil anos? E eles até lhe dirão que sempre houve adventistas e o povo do Sétimo Dia. E eles podem até criar algum tipo de tradição para isso, algum tipo de [dizendo algo como]: “Bem, talvez essa seita tenha existido ao longo dos séculos.” Mas o que eles lhe darão não será uma visão de mundo, uma filosofia. O que eles lhe darão será uma visão sectária.
Uma visão sectária é, como o próprio nome indica, uma seita: é algo isolado. Eles apresentam um fragmento da realidade de acordo com sua interpretação. Quando se trata de qualquer questão complexa, eles oferecem uma resposta muito simples, que não satisfaz alguém capaz de refletir profundamente. Eles, se surgir alguma coisa que pareça refutar sua posição ou torná-la confusa, dirão: “Obra do diabo” ou “Isso é maligno”, ou [se] você perguntar como interpretam as Escrituras, “literalmente”. Eles lhe darão respostas extremamente simples para perguntas que são muito complicadas. E você já precisa estar nesse caminho para aceitar isso.
E você se tornará — como de fato associamos aos sectários — algum tipo de grupo isolado do resto da sociedade, mantendo seu próprio pequeno ponto de vista, isolando-se de todos os outros, tendo suas próprias escolas e pensando que está na verdade. Mas você não terá uma espécie de filosofia, uma visão de mundo, que lhe permita compreender de verdade o que se passa no mundo, explicar esses fenômenos ao seu redor de uma forma que não viole a razão, que não seja apenas uma interpretação baseada em uma interpretação muito caprichosa das Escrituras, mas algo que tenha uma base sólida e que talvez não convença a todos de imediato, mas que pelo menos respeite a razão que Deus nos deu, e que não tenha uma visão excessivamente simplificada do que quer que esteja acontecendo no mundo, [uma visão segundo a qual] quem não concorda com a minha filosofia é ou um demônio ou uma pessoa que está completamente enganada.
Pelo contrário, muitas coisas que acontecem no mundo têm seu próprio poder: as ideias têm seu poder, os sistemas políticos têm seu poder, até mesmo os movimentos artísticos têm seu poder, porque há neles alguma semente da verdade. E se você não compreender o que é essa semente da verdade e como ela se misturou com o erro, o que nela é genuíno, o que nela é falso, você não será capaz de viver no mundo de hoje; e um cristão vive no mundo. Você deve compreender que um sectário salva a si mesmo e salva qualquer pessoa que consiga manter afastada da realidade, mantida em seu cantinho em algum lugar. Mas se essa pessoa sai para o mundo e começa a fazer perguntas, ela perde suas visões sectárias porque elas não são plausíveis. Ela tem que manter sua fé sectária em um cantinho em algum lugar, um pedaço da sociedade.
A Mente Ortodoxa: Razão, Verdade e Abertura
A visão de mundo ortodoxa não é assim. Hoje, os verdadeiros cristãos ortodoxos são muito poucos. E, por isso, somos chamados por alguns, como Schmemann e as pessoas que estão em dia com os tempos e querem estar em sintonia com católicos, protestantes e o pensamento contemporâneo — eles dirão que somos uma seita. Portanto, devemos saber: somos uma seita ou não? Se consideramos nossa Ortodoxia como algo semelhante ao mormonismo, ou seja, se conhecemos o catecismo, conhecemos os dogmas e podemos expor o ensinamento oficial da fé, e tudo fora disso é algo nebuloso ou recebe uma resposta excessivamente simplificada, então corremos o risco desse mesmo sectarismo. Pois, nesse caso, a Ortodoxia será para nós algo muito restrito. O caminho da salvação é muito estreito, mas a Ortodoxia, entre todas as religiões, é a religião de Deus; e, portanto, ela não nega as faculdades que Deus nos deu, especialmente a razão, que é a faculdade pela qual compreendemos a Verdade.
E é assim que a Ortodoxia é a única religião, porque é a verdadeira religião, a religião de Deus, que tem a resposta para tudo, que compreende tudo o que acontece no mundo. Isso não significa que tenhamos necessariamente uma resposta absoluta para tudo, pois essa também é uma característica da mentalidade sectária: eles têm uma resposta imediata e a apresentam de forma muito simplificada, sem espaço para discussão. Com a Ortodoxia, ao contrário, nós abrimos nossas mentes, pois, como temos a verdade, não temos medo do que quer que a ciência possa dizer, ou a filosofia, ou os escritores, ou os artistas. Não temos medo deles; podemos olhar para eles com nossa compreensão ortodoxa e com a mente e o coração abertos para ver o que realmente é positivo e compreender se são valiosos ou não, se são benéficos ou se são prejudiciais.
E assim, podemos observar qualquer fenômeno ao nosso redor. O sectário olhará ao seu redor e dirá: “Isso é mal: eliminem isso”. E, em relação a muitas coisas, é claro, é preciso fazer isso, porque há coisas que, especialmente agora, incitam flagrantemente ao pecado. Mas mesmo ao nos afastarmos delas e não nos expormos à tentação tanto quanto possível, temos que entender por que elas são assim, o que está acontecendo.
O Fim da Filosofia e a Ascensão da Era Pós-Cristã
Há questões para as quais não se tem uma resposta imediata quando se tem uma visão ortodoxa do mundo. Há certas coisas que não se conseguem explicar de imediato apenas com base no conhecimento sobre Deus, a Santíssima Trindade e os ensinamentos fundamentais da Igreja. Por exemplo, é característico que nossa época seja chamada de “pós-cristã”; é também uma época pós-filosófica, porque houve um tempo em que a filosofia estava muito viva no Ocidente. De fato, [Ivan] Kireyevsky, o escritor russo do século XIX, diz que até o início e meados do século XIX, a filosofia era a corrente, a principal corrente do pensamento europeu, porque o que os filósofos pensavam era o que havia de mais estimulante, mais interessante, e era o que então chegava ao povo. Em muito pouco tempo, o que quer que uma pessoa tivesse pensado em seu escritório em algum lugar de uma cidade na Alemanha já se tornava, em poucos anos, propriedade de todo o povo — até que a filosofia chegou ao fim de sua vida útil, o que ocorreu por volta de meados do século XIX, quando Kireyevsky estava vivo. Pois aconteceu que, depois de destruir o universo exterior com a filosofia de Hume, Berkeley e outros, a filosofia, a fim de encontrar algum fundamento sobre o qual se apoiar, acabou por se fixar em Kant, que dizia que tudo o que existe é o indivíduo, e que eu crio meu próprio universo; não sabemos o que é a coisa em si, o que existe lá fora; mas sou eu quem coloca tudo em ordem, e se eu me compreender, posso dar sentido ao universo. Mas isso equivale a um subjetivismo muito perigoso, porque nesse sistema não há mais espaço para a verdade. Há apenas espaço para algum tipo de visão convencional das coisas.
E depois dele vieram pessoas “fantásticas”, Fichte e esse Max Stirner e outros que disseram que não há nada no mundo além de mim, o “eu” sozinho no universo. E até mesmo Stirner chegou ao ponto de dizer: “Eu estou sozinho no universo pisoteando o túmulo da humanidade”, algo nesse sentido.[1] O que é uma espécie de conclusão lógica de pessoas que libertaram o pensamento de qualquer tipo de restrição e decidiram descobrir até onde poderiam levar suas reflexões. E quando você reflete sobre as coisas sem qualquer tipo de base tradicional, chega a um beco sem saída.
Depois disso, como diz Kireyevsky, a corrente dominante do Ocidente entrou na política. E é por isso que, especialmente após 1848 — e tendo início na Revolução Francesa, mas tornando-se particularmente forte após 1848 —, o principal acontecimento na história europeia e mundial foi o avanço da revolução, assunto que discutiremos mais adiante.
Portanto, quem deseja ter uma compreensão ortodoxa deve estar preparado para observar com mente e coração abertos o que acontece no mundo e usar a razão para descobrir o que está por trás disso, o que sustenta tudo isso. E devemos fazer isso agora que a era da filosofia já passou e as visões são muito orientadas para a prática. É surpreendente como, mesmo nas universidades, a razão não é utilizada de forma alguma. A crítica de arte torna-se apenas uma desculpa para o seu gosto subjetivo; não resta mais nenhum critério objetivo. Nesse tipo de mundo, novas crenças filosóficas e ideias muito perigosas não são mais apresentadas como algum tipo de verdade que você pode facilmente reconhecer como falsa, mas são apresentadas como algo diferente.
Palestra por Pe. Serafim Rose
Traduzido por Aurora Ortodoxia







