Entre a Ressurreição e o Pastoreio: O Amor que Caminha, Visita e Permanece

Após a Ressurreição, Nosso Senhor Jesus Cristo não abandonou os Seus discípulos à própria sorte. A vitória sobre a morte não significou distância, mas presença ainda mais profunda. O Cristo Ressuscitado aproximou-Se dos Seus, caminhou com eles, visitou-os, confortou-os, corrigiu-os, alimentou-os e preparou-os para carregar o peso do pastoreio espiritual em um mundo ferido.

A espiritualidade da Igreja Ortodoxa contempla este período como um dos momentos mais delicados e humanos da revelação divina. O Senhor ressuscita glorioso, mas continua procurando os Seus discípulos com ternura de Pai e fidelidade de Pastor. Ele aparece aos discípulos no Cenáculo, enquanto estavam escondidos pelo medo. Não os condena pela fuga, nem pela fraqueza. Aproxima-Se deles trazendo paz:“Paz seja convosco” (João 20:19).

Cristo visita Tomé na sua dúvida. Visita Pedro na sua vergonha. Visita os discípulos no caminho de Emaús na sua confusão. Visita os pescadores cansados junto ao mar de Tiberíades. O Ressuscitado transforma a visita em cura espiritual. Na tradição ortodoxa, este não é apenas um detalhe histórico, mas um modelo eterno do cuidado pastoral. O verdadeiro pastor não governa à distância. Ele acompanha, procura, escuta e sofre junto do seu rebanho.São João Crisóstomo dizia que o sacerdote deve possuir “mil olhos”, não para vigiar com dureza, mas para perceber as feridas invisíveis das almas.

Quando Cristo pergunta três vezes a Pedro:“Tu me amas?” (João 21:15-17), não está apenas restaurando um discípulo caído. Está revelando que toda autoridade espiritual nasce do amor sacrificial.E logo depois entrega-lhe a responsabilidade:“Apascenta as minhas ovelhas.” A Igreja nasceu deste encontro entre amor e responsabilidade.

O episcopado e o sacerdócio não surgiram como cargos administrativos, mas como continuação da presença pastoral do próprio Cristo no meio do povo. Os santos Apóstolos compreenderam isso profundamente. Depois da Ascensão, eles não se tornaram homens de prestígio, mas homens de presença. Visitavam as comunidades. Carregavam as dores dos fiéis. Escreviam cartas. Choravam pelos caídos. Corrigiam com lágrimas. Rezavam continuamente pelos seus filhos espirituais.

São Paulo é talvez o maior exemplo desta paternidade espiritual. Ele escreve aos coríntios: “Porque, ainda que tivésseis dez mil mestres em Cristo, não tendes muitos pais; pois eu vos gerei em Cristo Jesus pelo Evangelho” (1 Coríntios 4:15). O Apóstolo não se vê como um simples pregador, mas como pai espiritual. Ele acompanha. Pergunta. Visita. Envia discípulos. Preocupa-se com os fracos. Sofre pelas divisões da Igreja. Em muitas passagens, percebe-se mais o coração de um pai do que a autoridade de um líder.

Na espiritualidade ortodoxa, esta relação continua viva até hoje. O bispo é chamado a ser imagem do Cristo Pastor. O sacerdote é chamado a carregar o cheiro das suas ovelhas, conhecer suas lágrimas, suas lutas e suas quedas. Não basta celebrar os santos mistérios no altar. É necessário visitar os doentes, acompanhar os aflitos, sustentar os fracos, procurar os afastados e permanecer próximo mesmo quando não existem palavras.

Os Santos Padres insistem que o abandono espiritual é uma das maiores dores da alma humana. Muitos deixam de acreditar não porque perderam a fé em Deus, mas porque se sentiram esquecidos pelos homens da Igreja. Por isso, a visita pastoral possui um valor profundamente evangélico. Quando o pastor bate à porta de uma casa, leva consigo um testemunho da visita do próprio Cristo Ressuscitado ao Seu povo. Uma simples presença pode impedir um desespero. Uma oração pode sustentar uma família inteira. Uma palavra pode devolver esperança a alguém que já havia desistido da vida.

Mas esta responsabilidade não pertence apenas aos bispos e sacerdotes.Os próprios discípulos aprenderam de Cristo a viver entre si em comunhão, cuidado e amor fraterno. Após a Ressurreição, vemos os Apóstolos reunidos, perseverando juntos, suportando-se mutuamente e compartilhando tudo. A Igreja primitiva cresceu porque existia uma verdadeira família espiritual. Hoje, em um mundo marcado pela solidão, pela superficialidade e pelo individualismo, a Igreja Ortodoxa continua anunciando que ninguém deve caminhar sozinho.

A Ressurreição não criou apenas crentes. Criou irmãos. Criou pais espirituais. Criou servos que carregam uns aos outros até o Reino de Deus. Cristo Ressuscitado continua visitando o Seu povo. E muitas vezes Ele escolhe fazê-lo através da presença silenciosa de um bispo, de um sacerdote, de um monge, de um servo da Igreja ou até mesmo de um fiel que decidiu não abandonar o sofrimento do próximo. A verdadeira pastoral começa quando o outro deixa de ser um número e passa a ser uma alma pela qual Cristo derramou o Seu sangue. E talvez seja exatamente isso que o mundo mais precisa reaprender: a arte santa de permanecer próximo.

+ Bispo Theodore El Ghandour

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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