CSO 2.2 — O Escolasticismo e Tomás de Aquino

O Escolasticismo

E o pobre Tomás de Aquino tem sido tão surrado por nós Ortodoxos que devemos realmente lê-lo para ver o que ele tem a dizer em particular, porque apenas ler um pouco dele revela claramente a visão de mundo subjacente que ele tem, que tipo de perguntas ele faz, como ele as responde e como ele raciocina. Ele, é claro, tem um enorme livro, do qual eu acho que a coisa toda agora está em inglês, em vinte volumes ou algo assim: a Summa Theologica, no qual tudo é supostamente colocado: sobre Deus, sobre o homem, sobre o diabo, o mundo, o fim do mundo, o começo do mundo, tudo sobre o que o homem tem que saber. E ele tem tudo dividido em diferentes questões, em categorias.

E aqui está um exemplo de como ele raciocina. Por exemplo, ele faz a pergunta: “Se o diabo é diretamente a causa do pecado do homem?” Nós sabemos que o diabo age sobre nós e o homem entra em pecado, e ele faz todo tipo de perguntas sobre como isso acontece. E, portanto, ele faz a pergunta específica se o diabo é diretamente a causa do pecado do homem. Claro, um escritor Ortodoxo diria que temos que lutar; o diabo tenta nos tentar, mas não podemos ser tentados contra o nosso poder. Temos muitos textos que podem mostrar isso: os Santos Padres, as Escrituras e assim por diante. Teremos agora uma abordagem sistemática para essa questão.

Em primeiro lugar, no método escolástico, é preciso ter objeções, como na canonização dos santos, é preciso ter um advogado do diabo, que vai atrás de tudo de ruim que ele é capaz de encontrar sobre o santo, inventando coisas e tentando esmagar as provas. E assim, supostamente de posse do que há de positivo e do que há de negativo, você será objetivo e atingirá a verdade.

Então, temos a “Objeção Um: Parece que o diabo é diretamente a causa do pecado do homem.” Temos essa objeção porque é exatamente o oposto da resposta que ele quer dar.

Pois o pecado consiste diretamente em um ato do apetite. Ora, Agostinho diz que o diabo inspira seus amigos com maus desejos; e Bede, comentando sobre isso, diz que o diabo atrai a mente para os maus desejos. E Isidoro diz que o diabo preenche os corações dos homens com luxúrias secretas. Portanto, o diabo é diretamente a causa do pecado.

É claro que essa evidência pode ser descartada porque ele está citando essas pessoas que não pretendiam dizer o que esse objetor quer dizer. Então você já vê que tem que se torcer e fazer um raciocínio unilateral. E ele permite isso; ele coloca isso ali como argumento, para refutá-lo.

Então, temos outra objeção:

Objeção Dois: Além disso Jerônimo diz que como Deus é o Aperfeiçoador do bem, assim como o diabo é o aperfeiçoador do mal. Mas Deus é diretamente a causa do nosso bem; portanto, o diabo é diretamente a causa de nossos pecados.

É muito lógico: você tem Deus de um lado; mas, claro, fazemos o bem por nós mesmos além de ter a ajuda de Deus. Então isso é ridículo. Mas vamos a uma terceira objeção:

Além disso, o filósofo diz, em um capítulo da Ética: Há um princípio extrínseco necessário do conselho humano. Ora, este tem por objeto, não só o bem, mas ainda o mal. Logo, como Deus move para o conselho bom, e por aí é diretamente a causa do bem; assim o diabo, para o conselho mau, sendo então causa direta do pecado.

E agora ele vai varrer tudo pro lado e mostrar qual é a verdade. Então ele diz:

Pelo contrário, Agostinho prova que nada mais do que sua própria vontade faz do homem um escravo de seu desejo. Ora, o homem não se torna escravo do seu desejo, exceto através do pecado; portanto, a causa do pecado não pode ser o diabo, mas somente a vontade do homem.

E então ele dá sua resposta:

O pecado é um ato. Por isso a causa direta do pecado poderá sê-la também de sermos a causa direta de um ato. E isto não se pode dar senão pelo princípio próprio desse ato que leva a agir. Ora, o princípio próprio do ato pecaminoso é a vontade, pois todo pecado é voluntário. Logo, só pode ser causa direta do pecado o que pode levar a vontade a agir. … Mas, como já se disse, a vontade é suscetível de dupla moção. Uma, provocada pelo objeto; assim, dizemos que o objeto desejado e apreendido move o apetite. Outra, pelo interiormente inclinante a vontade a querer, e isso só pode ser ou ela mesma ou Deus, como já demonstramos. Ora, Deus não pode ser causa do pecado, como também já demonstramos. Resta, portanto, por este lado, só a vontade do homem como causa direta do seu pecado.

Em tudo isso não há nada como dos Santos Padres; isso é ele provando a você por A+B de maneira lógica, raciocínio silogístico. Ele prossegue e responde às objeções, todas mostrando que ele tentou dividir essa questão, que é muito simples sobre como o pecado age em nós. E os santos padres não vão dividir assim; em geral, eles vão lhe dizer a questão de como um homem peca, e você não terá que dividi-la assim porque é uma questão inteira; é uma questão muito existencial. Nós temos que saber sobre como o pecado age e como o diabo age em nós. Mas quando você divide o assunto em pedacinhos, você se sente muito contente por ter resolvido a questão por meio do raciocínio, e é algo muito diferente da abordagem patrística. Você já fez perguntas que começam a colocar um bocado de distinções desnecessárias.

Por exemplo, há uma pergunta: “Adão não tendo pecado, se os filhos de Adão e Eva contrairiam o pecado original, se só ela tivesse pecado.” Você sabe, se Eva tivesse pecado e depois Adão não a tivesse seguido, nós teríamos caído? Teríamos pecado original? O homem seria imortal? É uma espécie de pergunta bem abstrata. Quem jamais pensaria? E temos a objeção:

Parece que os filhos de Adão e Eva contrairiam o pecado original, se só ela tivesse pecado. Pois, contraímos dos pais o pecado original por termos preexistido neles, conforme aquilo do Apóstolo: no qual todos pecaram. Ora, o homem preexiste tanto no pai como na mãe. Logo, contrairíamos o pecado original pelo pecado tanto desta como daquele.

Novamente, a segunda objeção:

Se só Eva tivesse pecado, os filhos nasceriam passíveis e mortais. Pois, a mãe é a que dá a matéria da geração, como diz o Filósofo, Aristóteles. Ora, a morte e toda passibilidade decorrem necessariamente da matéria. Mas, a passibilidade e a morte inevitável são penas do pecado original. Logo, se só Eva tivesse pecado, os filhos contrairiam o pecado original.

Objeção Três: Damasceno diz, São João Damasceno, que o Espírito Santo preabitou na Virgem, de quem havia de nascer Cristo, sem pecado original, purificando-a. Ora, essa purificação não teria sido necessária se a mácula do pecado original não se contraísse pela mãe. Portanto, a infecção do pecado original foi contraída pela mãe, de modo que se Eva tivesse pecado, seus filhos teriam contraído o pecado original mesmo se Adão não tivesse pecado.

Tomás de Aquino vai ensinar o contrário, então ele diz:

Pelo contrário, diz o Apóstolo (Rm 5): por um homem entrou o pecado neste mundo. Ora, deveria, mais acertadamente dizer que entrou por ambos, porque ambos pecaram; ou antes, pela mulher, que pecou primeiro, se por ela se transmitisse à prole o pecado original. Logo, não é pela mãe, mas pelo pai, que o pecado original se transmite à prole. A resposta a esta dúvida resulta do que já foi dito. Pois, como já estabelecemos, o pecado original se transmitiu pelo primeiro pai, por dele depender a geração dos filhos. E por isso dissemos que quem fosse só materialmente gerado da carne humana não contrairia o pecado original. Ora, é manifesto, segundo a doutrina dos filósofos, que o pai é o princípio ativo da geração, ao passo que a mãe ministra a matéria. Portanto não é pela mãe, mas pelo pai, que foi contraído o pecado original. Ora, a esta luz, se não tivesse Adão pecado e Eva sim, os filhos não contrairiam o pecado original. E o inverso se daria se Adão tivesse pecado e não Eva.

E então ele responde as objeções em uma questão que está obviamente além de nossa palavra, porque Deus fez dessa maneira, é assim que é; não cabe a nós especular sobre essas questões que não são para nossa salvação, que só mostram que você tem tempo para sentar em suas cátedras e discutir questões inúteis. É uma pergunta totalmente inútil, e ele resolve e acha que tem a resposta. Na maneira como ele raciocina, você pode ver que isso é muito, muito diferente do espírito dos Santos Padres, que não saem em uma cadeia lógica de raciocínio. É tudo lógica, e às vezes ele chega a conclusões ridículas simplesmente seguindo a lógica.

Assim, podemos ver que isso — e ele é o ápice do escolasticismo — é uma sistematização do ensino cristão e, na verdade, subordina o ensino cristão à lógica. Mas a lógica em si, claro, depende do ponto de partida. E eles pensaram que estavam começando com a revelação cristã básica. Em breve, veremos que há todos tipos de outras coisas entrando, o que afeta a razão. Nesse sistema escolástico, a lógica torna-se o primeiro teste da verdade, e a fonte viva da fé é colocada em um lugar secundário. E é por isso que as pessoas mais tarde odiaram tanto o escolasticismo porque sentiram que era uma estrutura completamente inoperante, no qual não há mais vida, ociosamente discutindo questões que ninguém está preocupado, e quando você discute questões verdadeiras, você as nivela e amortece. E um homem ocidental, sob essa influência, começa a perder sua relação viva com a verdade. E assim o cristianismo é reduzido a um sistema, ao nível humano. E essa é uma das principais raízes dos erros posteriores no Ocidente, que podem ser resumidos como a tentativa de fazer pelos esforços humanos algo melhor que o cristianismo.

Dostoiévski tem uma pequena história sobre isso na lenda do Grande Inquisidor, em Irmãos Karamazov, na qual ele descreve muito profundamente o que os Papas fizeram, ou seja, toda a Igreja ocidental fazendo algo melhor do que a Ortodoxia, por seus próprios poderes.

Você pode ver isso, por exemplo, na célebre “Prova da Existência de Deus” de Anselmo, que inventou a nova prova da existência de Deus, que, como você pode ver, é extremamente inteligente e não prova nada. Ele diz: “O que é Deus? Deus deve ser aquilo que nada maior pode ser concebido.” E até mesmo um ateu dirá: “Bem, se Deus existe, sim, Ele deve ser maior do que aquilo que não existe ou do que pode ser concebido, pois não há nada maior do que Deus segundo aqueles que acreditam Nele.” Então, você entende o primeiro ponto.

Em segundo lugar, a existência é certamente uma característica positiva e algo que deve ser possuído por algo que é maior do que qualquer outra coisa que possa ser concebida. E você pensa, bem, é claro, se uma coisa é realmente maior do que qualquer outra coisa, ela deve existir porque isso é uma coisa positiva, e algo que é inexistente não será maior do que algo que existe. Então ele diz, portanto, aquilo que nada maior pode ser concebido deve ter como uma dessas características que o tornam maior do que qualquer coisa que possa ser concebida, a existência. Portanto, deve existir. Então Deus existe.

E como você vê, você está sendo enganado por este homem. Se você já acredita, pode dizer: “Isso é legal. Você pode provar isso pelas leis da mente.” Mas se você não acredita, sente que foi enganado por essa suposta prova. Porque você não está disposto a admitir, em primeiro lugar, que essa coisa é mais do que uma imaginação; e vemos nisso já as sementes do subjetivismo posterior no Ocidente.

Esta é realmente a mesma coisa que Descartes tentou fazer quando tentou provar sua própria existência dizendo: “Penso, logo existo”; e é também algo que mais tarde Metoxis Makrakis fez quando ele disse que foi o primeiro homem na história da Ortodoxia a provar a existência da Trindade, como se antes deste tempo todos os Padres tivessem perdido tempo, e ele foi o primeiro a ter bastante inteligência e compreensão da filosofia para provar o que os Santos Padres não puderam provar.

Makrakis tem exatamente a mesma mentalidade: “Por meus próprios esforços, eu lhes darei, pessoas simples que acreditam em tudo o que lhes foi dito, eu lhes darei a verdadeira explicação das coisas.” E é exatamente isso que pessoas como Anselmo estão tentando fazer. Este é novamente o espírito de tentar melhorar o Cristianismo, tentando aceitar não como os Santos Padres aceitaram na fé simples, mas provando por meio de … — na verdade ele está sob a influência de todas essas novas correntes, e especialmente, claro, de Aristóteles que foi muito influente naqueles tempos, porque ele parecia ter uma espécie de filosofia universal — exceto o cristianismo; sua visão da natureza era considerada absolutamente a verdade.

Então, este é o primeiro ponto: no escolasticismo, a razão humana torna-se a medida em vez da Tradição, e é exatamente aí que Roma errou. Mas isso é apenas parte de todo o quadro do que aconteceu na Idade Média.

Palestra por Pe. Serafim Rose
Traduzido por Aurora Ortodoxia

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Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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