O Arcebispo Teófano (Prokopovich), de Novgorod e Velikie Luki, nasceu no dia 21 de junho em 1681, em Kiev. Ele foi criado na tradição ortodoxa, mas, em busca de instrução, tornou-se greco-católico em terras polonesas para obter acesso a instituições católicas romanas. Anos de estudo em Roma, contudo, transformaram-no em um convicto anticatólico, com fortes inclinações para o Protestantismo. Ao retornar à Ucrânia, ele renunciou ao Catolicismo Romano e retornou formalmente à Ortodoxia. Em 1715, Pedro, o Grande, convidou-o para São Petersburgo.
Teófano desempenharia um papel decisivo na reformulação da Igreja Russa à imagem das ambições imperiais de Pedro.
São Justiniano, o Imperador (482–565), em seu Documento 6, apresentou esta célebre formulação da chamada *symphonia* (harmonia) entre Igreja e Estado:
“Os maiores dons entre os homens, concedidos pela benevolência divina, são o sacerdócio e a soberania: aquele dedicado às coisas divinas, esta aos assuntos humanos e à sua regulação.”
Na prática, esta visão elevada significou muitas vezes interferência imperial na vida eclesiástica. Justiniano, por exemplo, publicou o Documento 137 para instruir bispos e padres sobre como ler certas orações litúrgicas – conhecidas como orações “secretas”.
Mais tarde, os imperadores bizantinos levaram ainda mais longe o envolvimento imperial. Miguel III (r. 842–867), de acordo com relatos hostis posteriores, vestiu seu bobo da corte como um patriarca com vestes completas para zombar do cargo eclesiástico e humilhar sua mãe, a Santa Imperatriz Teodora. Leão VI (r. 886–912) foi ainda mais longe ao afirmar a prerrogativa imperial, pregando em Hagia Sophia e supervisionando a elevação de seu irmão de dezenove anos ao patriarcado. Nas suas próprias palavras, a autoridade imperial estava no centro das nomeações eclesiásticas.
Os imperadores iconoclastas dos séculos VIII e IX são notórios não apenas por suprimirem a veneração de ícones, mas também por tentarem subordinar a Igreja ao poder administrativo do Estado. Eles foram resistidos por confessores ousados, como São Teodoro, o Studita (759–826), que disse ao Imperador Leão V, o Armênio (r. 813-820) que Deus havia nomeado apóstolos, profetas, pastores e professores na Igreja – mas não imperadores. Em outras palavras, a ordem da Igreja não deveria ser determinada pela vontade do trono.
Ironicamente, não foi em Bizâncio, mas na Rússia, que essa visão imperial da Igreja triunfou plenamente. No início de sua vida, Pedro, o Grande — tal como Miguel III, embora em um registro mais teatral —, deleitava-se em parodiar formas eclesiásticas, sendo o exemplo mais célebre o seu “Sínodo de Todos os Bufões e Loucos, Dedicado à Brincadeira e à Bebedeira”. Sua sátira transformou-se em política de Estado em 1721, quando substituiu o Patriarcado pelo Santíssimo Sínodo Governante, um órgão estatal por meio do qual o monarca russo tornou-se o chefe *de facto* da Igreja. A ordem imperial acabou por codificar esse arranjo posteriormente.
Pedro precisava de reformadores para levar a cabo essa transformação, e Teófano Prokopovich era o candidato ideal: possuía formação ocidental, talento para a polêmica e uma teologia que servia aos interesses do novo regime. Ele foi o autor do Estatuto Eclesiástico (*Dukhovnyi reglament*), o documento que estabeleceu as bases jurídicas para a vida da Igreja no Império Russo de 1721 a 1917.
Em seu Decreto sobre os Monastérios, de 1724, Teófano parece adotar uma lógica surpreendentemente semelhante à dos imperadores iconoclastas. Seu argumento não era o de que Bizâncio havia caído devido a um declínio teológico, mas sim o de que o império contava com monges em excesso e poucos guerreiros — uma explicação fundamentada menos no Evangelho do que em uma visão estritamente utilitarista do Estado. Em Bizâncio, Constantino V (reinado: 741–775) oferece o precedente mais claro: suas políticas antimonásticas e iconoclastas tratavam o monasticismo como um obstáculo ao poder imperial e subordinavam a vocação ascética da Igreja às necessidades militares do Estado.
Essa história convida a uma reflexão que nos traz à realidade. Qualquer Estado — seja imperial, democrático ou de outra natureza — tenderá, se não for contido, a ultrapassar seus limites legítimos e a dominar o que quer que esteja à sua frente, inclusive a Igreja. Na história ortodoxa, a tragédia muitas vezes não foi apenas a interferência do Estado, mas a ausência de salvaguardas institucionais duradouras contra ela. Em Bizâncio, a memória de uma resistência cristã anterior permaneceu viva, ao menos, em figuras como São Teodoro Studita. Na Rússia, em contrapartida, as reformas de Teófano foram implementadas com muito menos resistência eclesiástica e com muito mais êxito por parte do Estado.
A tragédia do legado de Teófano não reside simplesmente no fato de ele ter ajudado Pedro a subjugar a Igreja. Reside em ele ter fornecido a esse subjugo uma fundamentação teológica e canônica, permitindo que o Estado se apresentasse como guardião da Igreja enquanto, progressivamente, privava a Igreja de sua liberdade.
Ao celebrarmos, neste ano, o 250º aniversário dos Estados Unidos, creio que temos motivos para ser gratos por viver em um país regido por um sistema de freios e contrapesos. Podemos discordar de muitos aspectos da sociedade contemporânea, mas também podemos reconhecer que não se espera que o Estado dite a vida interna da Igreja da maneira como frequentemente ocorreu em países ortodoxos. Essa liberdade é uma bênção que não deve ser encarada com leviandade.
Andrei Psarev
tradução de monja Rebeca (Pereira)








