JUVENTUDE DO APOCALIPSE – SANTOS DOS ÚLTIMOS DIAS (PARTE 2)

SACERDOTE-MONGE NESTOR

Em 1960, Nestor Savchuk nasceu na província da Crimeia, no sul da Rússia. Ele nunca foi próximo de sua família, mantendo-se sempre distante deles. À medida que crescia, começou a canalizar toda a sua energia para a luta livre, o boxe e as artes marciais. Possuía uma percepção aguçada e destacava-se entre seus pares.

Nestor também tinha um lado artístico, sendo um pintor talentoso. No início dos seus vinte anos, viajou para Odessa para trabalhar como aprendiz na pintura de murais religiosos. Em Odessa, tornou-se amigo de artistas mais velhos, que começaram a inspirá-lo com histórias de homens e mulheres justos que haviam glorificado a Deus por meio de seus trabalhos corajosos nos mosteiros da Rússia ao longo dos últimos mil anos. Era o início da década de 1980, a Rússia era comunista, e a antiga fé cristã ortodoxa havia sido praticamente esquecida pelo povo russo. De repente, uma faísca foi acesa no coração de Nestor. Ele começou a arder com o desejo de fugir da vaidade do mundo e reencontrar suas antigas raízes cristãs.

Tomando a decisão de entregar sua vida inteiramente a Deus, Nestor deixou Odessa e foi para o antigo Mosteiro de Pochaev, do século XIII. Ali, começou a trabalhar como monge com dedicação de coração. Pela providência divina, Nestor descobriu que tinha dois tios-avôs há muito tempo perdidos que serviam no mosteiro. Um era um padre casado que vivia com sua família na cidade, e o outro era um monge idoso muito venerado, conhecido por sua vida justa.

Naquela época, os mosteiros na Rússia comunista eram controlados pelo governo. Todos os monges eram obrigados a se registrar junto ao Estado, que era ateu. Nestor, sendo contrário ao ateísmo, nunca se registrou. Em meados da década de 1980, o governo começou a perseguir o mosteiro — alguns monges foram enviados para campos de prisão, enquanto outros simplesmente “desapareceram”.

Como não estava registrado junto ao Estado, Nestor sabia que seria preso ou morto se fosse encontrado pelos oficiais do governo. Assim, continuou lutando em condições semelhantes às de uma guerra, vivendo escondido como um monge “ilegal”. Nestor, possuidor de uma alma forte e corajosa, logo foi ordenado sacerdote-monge em idade extremamente jovem.

Com o tempo, as condições no Mosteiro de Pochaev tornaram-se tão severas que a maioria dos monges havia partido, sido levada para campos de prisão ou morta. Sem saber o que fazer, Nestor voltou-se para seu pai espiritual, o ancião João Kristiankin, que lhe disse para ir à aldeia isolada de Zharky. Seguindo esse conselho como orientação divina, Nestor partiu através da vasta extensão do interior da Rússia.

Após uma longa jornada, Nestor chegou à pequena aldeia de Zharky. Cercada por uma imensa região selvagem e com estradas alagadas no inverno, Zharky só era acessível durante os meses de verão. Poucos fiéis ainda permaneciam na aldeia. Ao chegar àquele lugar desolado no interior da Rússia, Nestor foi diretamente à igreja onde iria servir. Ela era antiga e deteriorada, mas possuía muitos ícones antigos. A inspiração original de Nestor viera das imagens religiosas, e mais tarde ele morreria por essas imagens antigas (ícones) de Cristo e dos santos. Desde que se tornara monge, seu coração ardia por Cristo e pelo outro mundo que eles representavam. Nestor olhava para os ícones e imagens de Cristo de maneira singular. Ele não via madeira e tinta, mas seu coração era transformado, e ele sentia dentro de si o Reino eterno de Deus. Compreender o ícone de Cristo é compreender a encarnação de Deus.

Certa vez, dois loucos-por-Cristo haviam sido martirizados naquela igreja. Antes de serem mortos, profetizaram dizendo: “O sacerdote que servir aqui até o fim será salvo”. Sem conhecer a profecia, mas sentindo uma atmosfera mística na antiga igreja, Nestor disse imediatamente que amava aquele lugar de todo o coração e que desejava permanecer ali pelo resto de sua vida.

Como acontece com aqueles que buscam a justiça, o sofrimento aguardava Nestor. A polícia o alertou sobre uma quadrilha de roubo de ícones comandada pela máfia russa — gângsteres de Odessa que roubavam ícones de igrejas rurais e os vendiam no mercado negro por grandes quantias de dinheiro. Quase todas as igrejas da região já haviam sido saqueadas.

Outras dificuldades vieram de arruaceiros locais que o perseguiam por ele ser sacerdote. Certo dia, Nestor prendeu seus longos cabelos e barba, como costumava fazer ao viajar para não chamar atenção, e seguiu para o ponto de ônibus levando alguns documentos importantes. No ponto, três jovens bêbados se aproximaram e começaram a provocá-lo. “Mostre sua cruz”, zombavam, tentando meter as mãos por baixo de seu casaco para alcançá-la. Para não permitir que profanassem sua cruz, Nestor foi forçado a desviar as mãos deles. Sem saber que ele era treinado em artes marciais, os jovens tentaram atacá-lo. Mas ele desviava dos golpes, fazendo a luta parecer mais uma dança. De repente, lembrando-se de que seus documentos estavam desprotegidos, Nestor hesitou; nesse momento, recebeu um golpe no olho. Logo a polícia chegou, mas Nestor pediu que deixassem os jovens irem embora. Ele não havia esquecido que também fora, um dia, um jovem rebelde. Um mês depois, o jovem que o havia atingido no olho foi até sua casa para pedir perdão. Após conversarem por algum tempo, o jovem André decidiu unir-se a ele, mudou-se para sua casa e começou a seguir seu rigoroso modo de vida.

Com seu zelo juvenil, ele trouxe vida à aldeia desolada de Zharky. Nestor também passou a viajar para várias outras igrejas da região ao redor, ajudando todos os necessitados, cristãos ou não. Para o povo russo, o jovem Nestor era um lembrete vivo de suas antigas raízes cristãs.

Além de seu trabalho abnegado em favor dos outros, Nestor mantinha uma vida austera de oração. Depois de viajar para visitar seus filhos espirituais em outras aldeias, Nestor voltava para casa caminhando à noite. Ele não gostava de viajar de carro; essas caminhadas noturnas eram o único tempo que tinha para si mesmo. Mesmo através da neve do inverno, caminhava até doze milhas para chegar em casa. Esse era seu tempo de estar a sós com Deus; ele se imergia na oração, perdendo a noção do tempo. Nestor retornava então para casa para cumprir sua rigorosa regra de oração, que consistia em horas de canto de antigos hinos e de oração de joelhos com lágrimas.

Com o tempo, Nestor viajou para a zona de guerra da Abkházia, na Geórgia (um pequeno país que faz fronteira com o sul da Rússia, anteriormente parte da União Soviética), a fim de ajudar o povo que sofria ali e difundir a luz e a verdade de Cristo. Ele começou a florescer nas condições de guerra, e nele nasceu o sacrifício supremo que um cristão pode oferecer — o desejo de ser martirizado pela fé em Cristo.

Sabendo que a morte era iminente naquela terra hostil da Abkházia, Nestor sentiu-se atraído a permanecer ali. Seu pai espiritual na Rússia, porém, orientou-o a voltar para a aldeia de Zharky, dizendo-lhe: “Uma mãe abandonaria seus próprios filhos para criar os filhos de outra?” Nestor compreendeu que precisava retornar aos seus próprios filhos espirituais.

Ao voltar para a Rússia, Nestor encontrou ainda mais dificuldades e até perseguição. A igreja foi roubada várias vezes, pegou fogo uma vez, e Nestor chegou a sofrer inveja e discórdia vindas do próprio povo. Certa vez ele disse a um amigo que eram justamente aqueles a quem mais havia dado que mais o afligiam.

Em 1993, três monges foram assassinados no famoso Mosteiro de Optina, no centro da Rússia. No século XIX, Optina fora a capital espiritual da Rússia Ortodoxa, renomada por sua linhagem de anciãos espirituais que remontava a São Paisios Velichkovsky. Multidões de pessoas, incluindo os escritores Dostoiévski, Tolstói e outros, acorriam ao Mosteiro de Optina em busca de orientação espiritual dos grandes anciãos. Os três monges foram esfaqueados até a morte na noite da Páscoa, durante a celebração da Ressurreição de Cristo. A autópsia mostrou o que parecia ser um assassinato ritual — cada um tivera a garganta cortada, e as facadas seguiam um padrão específico. Um punhal manchado de sangue foi encontrado no terreno do mosteiro com o número 666 inscrito na lâmina. Mais tarde, um homem confessou os assassinatos e admitiu que os crimes faziam parte de um ritual de uma seita satânica, e que havia deliberadamente matado os três melhores monges do mosteiro.

Nestor frequentemente falava dos mártires de Optina com grande reverência, e tornou-se evidente que ele ansiava por segui-los. Ele próprio desejava uma coroa de mártir. Certa vez, um amigo tentou aconselhá-lo, dizendo que era melhor ser longânimo e suportar as provas tediosas da vida. A isso Nestor respondeu: “Sabe, meu amigo, tenho um desejo tão ardente de receber uma coroa de mártir porque levei uma vida dissoluta quando jovem e vivi apenas para mim mesmo. Como posso retribuir a Deus pelo que Ele me deu?” O amigo suplicou: “É ousado demais desejar o martírio; é preciso sofrer por muito tempo.” Nestor respondeu novamente: “Sim, eu entendo isso, mas talvez, se eu rezar pelo martírio — talvez eu consiga rezá-lo até que aconteça.”

De fato, Nestor agora ardia com aquele fogo da fé que queima pelo outro mundo. Ele via a morte não como o fim da vida, mas como um começo. Sua fé era profunda — a ponto de ele ter começado a rezar pelo sofrimento e até pela morte, não como fuga deste mundo, mas para ser misticamente crucificado com Cristo.

Mais uma vez a igreja foi roubada. Desta vez, Nestor já não aguentava mais — sua pobre igreja estava sendo extorquida. Ele precisava fazer algo. Rapidamente, percebeu marcas de pneus na neve que levavam a uma estrada de terra na floresta e começou a segui-las. À distância havia um carro estacionado. Para esconder o fato de que era monge, Nestor retirou o capuz monástico, levantou o manto e aproximou-se do carro cambaleando e gritando como se estivesse bêbado. Dentro do carro estava um gângster, que imediatamente saltou e o atacou. Mais uma vez, a experiência de Nestor nas artes marciais veio em seu auxílio, pois conseguiu desviar dos golpes e ganhar tempo suficiente para anotar a placa do veículo. A polícia acabou capturando os criminosos e devolveu os ícones à igreja. Chegou então a Nestor a notícia de que, se ele prestasse queixa formal, a máfia iria caçá-lo. Seus amigos mais próximos imploraram para que ele não o fizesse. Nestor encontrou-se com o gângster que o havia atacado e perguntou por que ele tinha feito aquilo. O criminoso respondeu: “Dinheiro.” Então Nestor perguntou se ele se arrependia de ter roubado a igreja. Mas ele respondeu sem o menor remorso: “Não me arrependo de nada.” Nestor sabia que precisava tomar uma posição. Se permitisse que a máfia o intimidasse, sua pobre igreja sofreria. A alguém que tentou dissuadi-lo, Nestor explicou: “Se esses fossem meus inimigos pessoais, eu poderia perdoá-los; mas esses homens são inimigos dos simples fiéis e de Deus. Eles não têm nenhum arrependimento pelo mal que fizeram. Não posso deixá-los ir.”

Então começaram várias tentativas contra a vida de Nestor, das quais ele escapou por pouco. Os roubos de ícones tornaram-se generalizados — todas as igrejas da região haviam sido assaltadas ao menos uma vez. Nestor passou a vigiar a igreja à noite. A máfia já não queria apenas os ícones — queria a vida de Nestor.

Em certa ocasião, Nestor ouviu uma batida à porta. Quando a abriu, foi recebido sob a mira de uma arma. Sem recuar, Nestor olhou destemidamente nos olhos dos criminosos, virou-se, entrou em sua casa e trancou a porta. Os homens foram atrás dele, quebrando a janela. Pegando uma pistola sinalizadora, Nestor disparou alguns tiros para assustá-los. Mas, sabendo que ele era monge e sacerdote e que não atiraria neles, eles invadiram pela janela. Nestor então correu para seu quarto e trancou a porta; ao tentar sair pela janela, cortou o braço e começou a sangrar. Rapidamente, enfaixou o ferimento e conseguiu escapar. Enquanto fugia, o sangue pingava no chão — o mesmo chão sobre o qual ele mais tarde derramaria o sangue de sua própria vida.

Sabendo que cada dia poderia ser o seu último, Nestor começou a redobrar seu trabalho missionário. Um amigo próximo recorda: “A cada pessoa ele se entregava por completo; todos acorriam a ele. Às vezes era difícil. Em certas ocasiões ele se trancava em seu quarto por dois ou três dias para jejuar e rezar. Assim recebia forças para continuar. No último ano em que o conheci, ele se tornou tão profundo… uma profundidade simples que vinha da confiança em Deus. Ele não tinha medo de nada. Era um homem incomum que se entregou à vontade de Deus. Era destemido.”

Nestor havia rompido o muro que separa Deus do homem, e Deus tornara-se uma força viva nele. Um amigo íntimo recorda uma de suas últimas conversas com o hieromonge Nestor: “Falamos sobre os inimigos da Igreja. Ele me disse: ‘Por que deveríamos ter medo?’ Eu respondi: ‘Mas esses ladrões perversos estão em toda parte!’ Ele falou calmamente: ‘Tudo é vontade de Deus. Sofrer por Cristo — isso é uma grande alegria.’ Ele falava sobre a guerra espiritual que está acontecendo no mundo hoje… Ele já estava preparado para a morte.”

Em 31 de dezembro de 1993, o hieromonge Nestor foi encontrado morto do lado de fora da janela de sua casa, com a garganta cortada e múltiplas facadas. O povo acredita que não se tratou de um simples caso de vingança, mas de um movimento estratégico dentro de uma guerra espiritual que ocorre hoje em todo o mundo. À medida que as forças das trevas aumentam, a luz torna-se mais visível. A vida e a morte do hieromonge Nestor não representam derrota, mas o triunfo da justiça de Deus. É o auge da experiência humana — o martírio pela verdade. O hieromonge Nestor passou desta vida aos trinta e três anos — a mesma idade em que Jesus Cristo foi crucificado.

Em um mundo vazio de exemplos de retidão, esses amantes da verdade oferecem um exemplo heroico de sofrimento pela verdade. Mas suas vidas nada significam se não forem acolhidas por nós e se não as imitarmos. Claramente, a mensagem desses justos é algo pelo qual este mundo não tem o menor interesse. Aqueles que, como esses amantes da verdade, sentiram-se deslocados na sociedade, que foram devorados e cuspidos por um mundo incompreensivo, conseguem entender seu chamado radical da última e verdadeira rebelião. Os “respeitáveis” não escutam a mensagem de Cristo, que não é deste mundo — mas os rejeitados compreendem.

St. Herman of Alaska Brotherhood
Tradução do Diácono André Souza

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Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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