Oração
Assim, do amor somos conduzidos à oração. O grande monge do Monte Atos, São Gregório Palamas, disse o seguinte sobre a oração, revelando as profundezas da oração do coração. “A virtude da oração realiza o mistério da nossa união com Deus; ela é o vínculo das criaturas racionais com o seu Criador.”
Existem três graus de oração, que são como três elos de uma corrente. Cada grau conduz ao outro, até que aquele que reza alcance a perfeição desejada da oração. Pouquíssimas pessoas realmente perseveram até a perfeição na oração. De fato, nestes tempos de distração, muito poucas pessoas passam do primeiro elo na progressão da oração.
Antes da oração vem a fé. Devemos compreender que a oração é uma conversa real com Deus, na qual, depois que o coração é purificado, Deus vem habitar dentro do coração. Por isso o corpo é chamado de templo, pois é a casa de Deus. É por isso que Cristo disse: o reino de Deus está dentro de vós. É aqui que o céu começa para aqueles que desejam o céu. Assim, a oração — a verdadeira oração — exige uma fé que não é deste mundo.
Sobre os três graus da oração, São Teófano, o Recluso, diz: “O primeiro grau é a oração corporal, que consiste na leitura de orações escritas e salmos. Nela deve haver paciência, trabalho e suor, pois a atenção na oração foge. O coração então começa a não sentir nada e perde o desejo de rezar. Contudo, apesar disso, estabelece para ti uma regra de oração e mantém-te fiel a ela. Esta é a oração ativa.
O segundo grau é a oração com atenção: a mente se acostuma à atenção no momento da oração e reza conscientemente, sem distração. A mente se concentra nas palavras escritas a ponto de pronunciá-las como se fossem suas.
O terceiro grau é a oração do sentimento: o coração é aquecido pela concentração, de modo que aquilo que antes era apenas pensamento se torna sentimento. Primeiro era uma frase virtuosa lida, depois torna-se a própria virtude; e o que era apenas um pedido em palavras transforma-se em um sentimento de total necessidade. Aquele que passou pelo primeiro grau — ação; e pelo segundo grau — pensamento; e chegou ao verdadeiro sentimento, rezará sem palavras, pois Deus é o Deus do coração.”
Volta-te para Deus, trazendo a atenção da mente para dentro do coração, e invoca-O ali. Com a mente firmemente estabelecida no coração, permanece diante de Deus com temor, reverência e devoção. Se cumpríssemos fielmente essa pequena regra, os desejos e sentimentos passionais jamais surgiriam, nem qualquer outro pensamento.
Todo o significado da existência humana se resume na oração. Ela é o começo e o fim da vida e o primeiro objetivo buscado a cada dia da vida. Teófano, o Recluso, diz: “A principal coisa na vida é permanecer com a mente no coração diante de Deus, e continuar a permanecer diante d’Ele incessantemente, dia e noite, até o fim da vida.”
A oração é o único caminho para a perfeição, mas a oração neste mundo corrupto e imperfeito nasce somente da dor do coração.
Dor do coração
Se existe um elemento comum que une a humanidade, é o sofrimento. Pessoas de todas as raças, classes e nações sofrem. Simplesmente, sofrer é ser humano.
A tirania do mundo niilista faz a humanidade sofrer. Na rebelião do homem, ele inflige dor a si mesmo, causando ainda mais sofrimento. Mas talvez o pior sofrimento seja o sofrimento da ignorância, que leva o homem a seguir os prazeres vazios do mundo. A pergunta é: como o homem escapa do sofrimento?
A resposta é: o homem não pode escapar do sofrimento neste mundo. O Cristo crucificado ensina que o homem deve abraçar o sofrimento e, por meio dele, passar para a vida eterna, que é isenta de sofrimento. E esse sofrimento deve ser pela verdade de Deus. Se sofremos por nós mesmos, sofremos em vão; mas se sofremos por Deus, sofremos pela verdade.
Mas Deus é a fonte da misericórdia, e é por Sua sabedoria que o homem não pode escapar do sofrimento neste mundo. O sofrimento é um dos maiores mestres. O monge Serafim Rose, um homem que foi um verdadeiro filósofo e conheceu e compreendeu o dom do sofrimento, disse certa vez: “Por que os homens aprendem por meio da dor e do sofrimento, e não por meio do prazer e da felicidade? Muito simplesmente, porque o prazer e a felicidade acostumam o homem à satisfação com as coisas dadas neste mundo, enquanto a dor e o sofrimento o impulsionam a buscar uma felicidade mais profunda além dos limites deste mundo.”
É precisamente quando a pessoa sofre aparentemente sem motivo que Deus Se revela. Foi pelos oprimidos e abatidos que Cristo veio à terra. Cristo veio libertar a raça humana da escravidão espiritual, para libertar os cativos. O sofrimento pode ser até mesmo um caminho direto pelo qual Deus toca o coração. Como alguém que sofreu intensamente, o monge Serafim Rose fala por experiência pessoal: “O processo da revelação ocorre de maneira muito simples: a pessoa está em necessidade, sofre, e então o outro mundo se abre. Quanto mais você estiver em sofrimento, dificuldades e desesperado por Deus, mais Ele virá em seu auxílio, revelará quem Ele é e mostrará o caminho.”
Quando uma pessoa aceita Cristo em seu coração, o peso do sofrimento da vida torna-se leve. O sofrimento então é transformado em alimento espiritual, pelo qual a virtude é adquirida.
A primeira virtude que o sofrimento ensina é a humildade. Aqueles que sofreram intensamente sabem que a força humana, por si só, não é suficiente para suportar a dor da vida. Somente pela força de Deus eles conseguem suportá-la, quer venha de uma fonte externa — doença, ferimento corporal ou até tortura — quer venha de conflitos internos — solidão, desespero, tristeza, abandono e luto. Deus ensina a humanidade por meio do sofrimento para revelar a fraqueza humana, a fim de que busquemos o poder de Cristo.
A próxima virtude que o sofrimento produz é a paciência. Ao suportar a dor e as provações da vida, adquire-se força de alma. Juntamente com a paciência longânime, vem a capacidade de enxergar além do mundo temporal com suas dificuldades e de ver o “quadro maior”. A sabedoria diz ao sofredor que olhe para as coisas eternas, onde não há doença, tristeza nem suspiro. Mantendo a eternidade no coração, o sofredor pode suportar o desconforto temporal e sentir gratidão a Deus por lhe conceder a oportunidade de carregar uma cruz. Ao suportar o sofrimento com paciência, a alma é temperada e o homem recebe a chance de se tornar verdadeiro e crescer na fé.
A terceira virtude aprendida por meio do sofrimento é a compaixão. Somente aquele que sofreu pode ter compaixão por outro que sofre. Essa virtude pode crescer a tal ponto que a pessoa pode literalmente sentir a dor do outro, e até mesmo a dor de toda a humanidade, clamando em seu estado lamentável. São Isaac da Síria, ao falar da compaixão, disse: “E o que é um coração misericordioso? É o inflamar do coração por toda a criação — pelos homens, aves, animais, demônios e todas as criaturas. Ao recordá-los e contemplá-los, os olhos se enchem de lágrimas por causa de uma grande e poderosa compaixão que envolve o coração. E o coração se enternece, e não pode suportar ouvir ou ver qualquer tipo de dano, nem mesmo a menor tristeza, sofrida por uma criatura. E por isso, até mesmo por aqueles que lhe causam mal, ele oferece oração a cada hora, para que sejam preservados e purificados. Ela desperta no coração sem medida, à medida que alguém se torna semelhante a Deus.”
Dessas três virtudes alcançadas por meio do “carregar da cruz” de Cristo, surge um estado da alma chamado “dor do coração”. A dor do coração é uma fonte da qual o sofredor bebe, que o impulsiona a suportar tudo, a atravessar a morte e a encontrar o reino eterno. O fundamento da dor do coração é a lembrança da morte, a natureza transitória da vida na terra e o estado sofredor do homem na terra. Esses pensamentos conduzem imediatamente o sofredor à lembrança de Deus. O grande monge da Palestina do século IV, São Marcos, o Asceta, disse certa vez uma frase simples que captou em sua plenitude a dor do coração:
A recordação de Deus é dor do coração suportada no espírito de devoção. Mas aquele que se esquece de Deus torna-se indulgente consigo mesmo e, assim, insensível.
É essa recordação de Deus que consuma a última verdadeira rebelião. O carregar da cruz no espírito de devoção é o caminho pelo qual a alma do homem é purificada e preparada para passar pela morte corporal à vida eterna.
Os Três Inimigos
Agora, após formar uma visão de mundo com a compreensão do corpo e da alma, dos sentidos, das paixões, das virtudes, da oração e do sofrimento, a última verdadeira rebelião pode ser revelada em sua totalidade. O monge, São Paisios, em seus escritos, reduziu essa rebelião a três elementos: o mundo, a carne e o diabo. É a rebelião contra estes que constitui a última verdadeira rebelião:
O Mundo
O primeiro grau da guerra e da batalha é contra o mundo. Isto acontece quando nos separamos dele e deixamos seus prazeres doces e a miragem enganosa de suas belezas — da riqueza corruptível, da liberdade temporária — e tomamos como exemplo a pobreza voluntária de Cristo. Se alguém deseja tornar-se amigo do mundo, torna-se inimigo de Deus. Portanto, foge deste mundo para uma vida de quietude. Nega o mundo com sua ilusão; afasta-te dele com um afastamento que nunca retorna. E assim terás vencido o primeiro inimigo.
A Carne
Vencerás o corpo se te refreiares do excesso de alimentos prazerosos e da bebida descontrolada. Então, pelo jejum, matarás o desejo do pecado e mortificarás as paixões carnais; destruirás a preguiça com a vigilância; o desejo de relações sexuais impuras, com a autodominação da pureza. É com essas flechas que o corpo faz guerra contra a alma.
Nosso próprio corpo é em parte um inimigo para nós, pois com seu desejo pelo pecado luta contra a alma. Mas ele também é nosso amigo, pois pode auxiliar a alma no que é bom. Com o corpo, com a ajuda de Deus, posso jejuar, derramar lágrimas e dar esmolas. Não podemos fazer essas coisas apenas com a alma nua.
Se olharmos para este mundo de baixo, apenas para o corpo, então o homem é temporário, mortal, herdeiro do fogo e das trevas. Mas se olharmos com o olho da mente para o mundo do alto, então somos eternos, imortais e herdeiros da luz celestial. Por isso, suplico-vos, como servos de Cristo, que não sejais cativos do mundo de baixo, do corpo e da morte, mas vivais para o mundo do alto, para a imortalidade.
O Diabo
Se venceres o mundo e a carne, então poderás facilmente tomar armas contra o próprio diabo, contra os governadores do mundo, o príncipe das trevas. Apenas toma toda a armadura de Deus com as armas da fé, da paciência e da oração. Assim o diabo e seus poderes são vencidos: o orgulho pela humildade, a vanglória pela negação de si mesmo, o sexo pela pureza; mas, acima de tudo, pela cruz da tua paciência, crucificando-te para o mundo e, assim, morrendo para a vida pecaminosa.
Então tua vitória aparecerá como a lua cheia em pleno dia, resplandecendo com glória eterna; os anjos de Deus virão ao teu encontro e Cristo, o eterno Rei da glória, te receberá e te glorificará, concedendo-te um lugar em Seu reino celestial.
Palavra Final
Neste mundo despedaçado que caminha para o fim, agora tudo está muito claro. À medida que a guerra do homem contra Deus continua, ela cessou em nós. Já não somos filhos da guerra que choram até dormir pela morte de Deus. Já não somos filhos das trevas, mas filhos da luz, pois conhecemos nossa origem, vivemos nossa morte e fomos ressuscitados.
Agora conhecemos a diferença entre deformidade e beleza, mal e bem, ódio e amor — e falar de amor é ousar falar de Deus, pois Deus é amor. Assim, Deus não está morto, pois quem poderia matar o amor? É esse amor que vale a pena morrer diariamente — é Deus que é digno de nosso sacrifício supremo, pois Deus primeiro morreu por nós.
Sobrevivemos ao inferno deste mundo que morre e agora sabemos que o reino dos Céus está dentro de nós. Enquanto o mundo continua na morte, carregaremos a cruz da vida, pois vemos claramente o inferno ao nosso redor, mas escolhemos ser crucificados pessoalmente — misticamente; pois a crucificação é o único caminho para a ressurreição.
Nessa ressurreição, Cristo despedaçou as portas do inferno e libertou aqueles que estavam acorrentados. Ele venceu a morte pela morte e concede vida aos que estão no túmulo. Tudo isso pelo poder de Deus, deixando-nos estas simples instruções para a última verdadeira rebelião:
Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus.
Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.
Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos.
Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.
Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus.
Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus.
Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus.
Bem-aventurados sois vós quando vos injuriarem, vos perseguirem e disserem todo mal contra vós, mentindo, por minha causa.
Com essas verdades, a juventude do apocalipse pode erguer-se acima das trevas do fim e tornar-se a luz do mundo.
Mas agora permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; porém o maior deles é o amor.
St. Herman of Alaska Brotherhood
Tradução do Diácono André Souza








