E que os outros são sempre mais importantes do que eu e que eu devo ajudá-los?
Esta é uma questão muito delicada, pois é fácil cair em extremos. Alguns acreditam que o autocuidado é quase um pecado, uma manifestação de egoísmo. Outros, ao contrário, fazem do autocuidado um valor absoluto, esquecendo-se dos outros. A verdade, como sempre, reside em algo mais profundo.
O Cristianismo nunca ensinou a autodepreciação. Além disso, o mandamento é: “Ame o seu próximo como a si mesmo”. Isso significa que o amor-próprio natural e saudável é a norma. Se o autocuidado fosse algo ruim, Cristo não o teria tomado como medida do amor ao próximo.
Egoísmo não é autocuidado. Egoísmo é colocar-me no centro do mundo e usar os outros para minha própria conveniência, prazer ou ganho. Autocuidado é algo completamente diferente. É responsabilidade pela sua alma, seu corpo, sua saúde, seus limites. Se uma pessoa se esgota, arruína sua saúde, se submete a constantes abusos e chama isso de “sacrifício”, isso não é virtude, mas muitas vezes um sinal de imaturidade espiritual ou medo da rejeição.
Deus não exige autodestruição de nós. Cristo nos ordenou a amar o nosso próximo, mas não nos ordenou a odiar a nós mesmos. Além disso, é impossível ajudar verdadeiramente os outros se você está internamente exausto, se não tem paz. Então, ajudar se transforma em orgulho oculto ou ressentimento silencioso: “Eu me esforço ao máximo por todos, mas ninguém se importa comigo.”
É importante entender: outras pessoas nem sempre são mais importantes do que você. O que importa é o amor, e o amor não se constrói destruindo um lado em prol do outro. Às vezes, a maturidade cristã se manifesta justamente na capacidade de dizer “não” quando você está sendo usado, quando sua ajuda o destrói ou quando torna alguém dependente. Isso também é uma forma de responsabilidade.
Há outra verdade profunda: uma pessoa não pode dar o que não tem. Se não há paz na alma, luz interior, respeito por si mesmo como imagem de Deus, o amor ao próximo será distorcido. Portanto, o autocuidado não é egoísmo se visa tornar-se mais íntegro, mais vivo, mais capaz de amar.
O Cristianismo não é uma religião de autodestruição. É o caminho para a ordem correta: Deus está no centro, depois vem o próximo, mas eu mesmo não estou excluído desse amor. Porque se Deus me ama, não tenho o direito de me desprezar.
Metropolita Ambrósio (Ermakov)
tradução de monja Rebeca (Pereira)







