Esta é uma pergunta que muitos evitam fazer. Talvez porque ela toque o coração da nossa fé de maneira mais profunda do que gostaríamos. Afinal, quantos de nós buscamos a Deus por amor verdadeiro e quantos O buscamos por medo do inferno ou desejo do céu?
A pergunta pode parecer perigosa. No entanto, ela nos leva a refletir: qual é o verdadeiro motivo da nossa relação com Deus? Muitas pessoas imaginam Deus como uma espécie de juiz distante, cuja principal função é distribuir recompensas e castigos. Nessa visão, a religião torna-se um contrato: eu obedeço, Deus me recompensa; eu desobedeço, Deus me pune.
Mas a fé da Igreja Ortodoxa sempre ensinou algo muito mais profundo. Deus não é apenas Aquele que oferece o céu. Deus é o próprio Céu. O Reino de Deus não é simplesmente um lugar para onde vamos após a morte. O Reino é a comunhão com Deus. É a participação em Sua vida, em Seu amor, em Sua luz. Por isso, os Santos Padres ensinam que a salvação não consiste apenas em escapar do inferno, mas em unir-se Àquele que é a Fonte da Vida.
Se retirássemos da equação todas as recompensas e todos os castigos, restaria uma pergunta essencial: Deus continua sendo bom? Deus continua sendo verdadeiro? Deus continua sendo digno de amor? A resposta dos santos foi sempre a mesma: sim. Os mártires não entregaram suas vidas por um sistema religioso. Entregaram suas vidas porque encontraram em Cristo uma beleza que valia mais do que a própria existência terrena.
Os monges abandonaram riquezas, honras e confortos não porque estavam apenas preocupados com o destino após a morte, mas porque descobriram que nada neste mundo podia ser comparado à presença de Deus. São Serafim de Sarov dizia que o objetivo da vida cristã é adquirir o Espírito Santo. Não dizia apenas “garantir um lugar no céu”, mas tornar-se participante da vida divina já nesta existência.
Por outro lado, quando observamos o mundo, muitas vezes somos tentados ao desânimo. Os maus prosperam. Os corruptos acumulam riquezas. Os violentos parecem vencer. Pessoas injustas chegam à velhice cercadas de conforto. Enquanto isso, muitos justos sofrem.
Essa realidade não é nova. O Salmista já se perguntava por que os ímpios prosperavam. Jó questionava o sofrimento do inocente. O Eclesiastes observava as aparentes contradições da vida. Cristo nunca prometeu que a história humana seria uma marcha contínua de vitórias da justiça. Pelo contrário. Ele nos advertiu sobre guerras, perseguições, escândalos, traições e sofrimentos.
A presença de Deus não elimina automaticamente os problemas do mundo. Ela transforma o coração daquele que O busca. É por isso que a pergunta mais importante não é: “O que acontece com quem vive sem Deus?”
A pergunta mais importante é: “O que deixo de me tornar quando vivo sem Deus?” Uma pessoa pode viver noventa anos, conquistar riquezas, fama e sucesso, e ainda assim permanecer espiritualmente vazia. Pode possuir tudo e não possuir paz. Pode ser admirada por muitos e não conhecer o amor. Pode dominar os outros e não conseguir dominar as próprias paixões. A tragédia maior não é morrer cedo. A tragédia maior é viver longe da Fonte da Vida.
Muitos pensam que a salvação é um evento futuro. Contudo, a tradição ortodoxa ensina que a salvação começa agora. O inferno começa agora. O céu começa agora. Cada vez que o homem escolhe o egoísmo, a vaidade, o orgulho e a autossuficiência, ele experimenta uma antecipação do afastamento de Deus.
Cada vez que escolhe o amor, a humildade, o arrependimento e a comunhão com Cristo, ele experimenta uma antecipação do Reino.
Por isso, o cristão não vive apenas esperando a próxima vida. Ele procura viver a eternidade já nesta vida.
Talvez devêssemos inverter a pergunta. Em vez de perguntar: “Se não existisse céu nem inferno, eu continuaria amando Deus?”
Talvez devêssemos perguntar: “Se Deus é a Verdade absoluta, o Amor perfeito, a Beleza eterna e a Fonte de toda vida, como eu poderia deixar de amá-Lo?”
Os santos encontraram a resposta não em teorias, mas em suas vidas. Eles amaram Deus porque descobriram que fora d’Ele tudo passa.
Somente Deus permanece. Somente Deus satisfaz a fome profunda do coração humano. Somente Deus é digno de ser amado por aquilo que Ele é, e não apenas pelo que Ele pode nos dar. E quando o homem descobre isso, percebe que o céu não é uma recompensa distante.
O céu é Cristo. Começar a amá-Lo já é começar a entrar nele.
+ Bispo Theodore El Ghandour.







