CSO 2.3 — Lendas, Arte e Política na Idade Média

O Romance nas Lendas Medievais

Algo mais aconteceu. A tradição católico-romana não é apenas racionalizada, ela também se mistura com o romance. O elemento de lendas pagãs passa a entrar na vida ortodoxa dos santos neste tempo — em algumas vidas dos santos que temos em nossas fontes ortodoxas, se você ler a mesma vida de um santo em uma fonte medieval latina, você ficará completamente surpreso. Vamos tomar um exemplo, a vida de São Cristóvão, que é conhecida — não se sabe muito sobre ele, mas sua vida é conhecida: ele era um soldado e foi martirizado, torturado. E há vários milagres na vida; ele tem um cajado que brota, isso na tradição das vidas ortodoxas dos santos.

Mas há um livro escrito no século XIII, Legenda Áurea, que é uma síntese ou uma compilação de vidas de santos, assim como temos leituras diárias de Dimitry de Rostov, Vidas de Santos. A Legenda Áurea transforma uma coisa em contos de fadas, e não no relato dessa coisa. No século XIII, no auge da Idade Média, antes do Renascimento, ela relata a vida de São Cristóvão, que é tal que você não vai saber o que ele está falando.

Então parece que, de acordo com essa “vida”, São Cristóvão era algum tipo de bárbaro que decidiu ir em busca do rei mais poderoso do mundo para servi-lo. E ele encontra algum tipo de rei poderoso, que é grande, como sempre acontece, e ele o serve e é muito feliz porque ele pode ser viril e valente e lutar por ele. E depois vem um menestrel para esta corte, você provavelmente já viu essas pessoas por aí, trovadores e assim por diante, e um menestrel chega à sua corte e começa a cantar. E ele canta sobre o diabo, ele menciona o diabo, e toda vez que ele menciona o diabo, o rei faz o sinal da cruz; ele parece ser algum cristão. E São Cristóvão fica surpreso. “Por que você fez o sinal da cruz? Por que você fez o sinal da cruz sempre que ele mencionou o diabo?

“Porque eu sou cristão, tenho medo do diabo.”

“Com medo do diabo! Isso significa que o diabo deve ser um rei mais poderoso do que você: eu vou servir o diabo.”

Então ele sai em busca do diabo para servir ao diabo porque ele é um rei mais poderoso. E ele finalmente encontra alguém na estrada e diz: “Quem é você?”

“Eu sou o diabo.”

“Bom, eu quero servir você. Você é o rei mais poderoso do mundo.” Então ele se dedica ao serviço do diabo e vai com ele em suas aventuras para vários lugares. E eles chegam a uma cruz, e o demônio de repente recua, hesita e foge. E Cristóvão diz: “Por que você fugiu? Eu pensei que você fosse o rei mais poderoso do mundo.”

“Não, eu não suporto a cruz.”

“Por que não?”

“Eu não vou te dizer.”

Ele disse: “Não, se você não me disser, eu irei procurar outro rei poderoso, porque você não é tão poderoso.” E ele explicou que havia alguém que morreu na Cruz, a quem teme e seu nome é Cristo.

Então ele diz: “Ah, isso significa que há um rei mais poderoso ainda. Eu irei e servirei a Cristo.” E assim ele sai em busca de Cristo. Ele chega em algum tipo de homem santo, um monge ou algo assim. E ele diz: “Onde posso encontrar a Cristo?” Bem, o homem fala sobre Cristo. Ele diz: “Oh, quero servi-lo. Como eu sirvo a ele?”

“Bem, comece em jejum.”

Ele diz: “Oh, eu não posso jejuar.”

“Não pode jejuar? Bem, então comece a rezar.”

“Oh, eu não posso rezar.”

“Bem, você não pode rezar. Nesse caso, vá para um certo rio, construa uma cabana, sente-se perto do rio e espere as pessoas virem e leve elas através do rio, e assim você servirá a Cristo.”

Então ele vai para o rio, constrói o seu lugar e senta lá, e uma noite, noite de tempestade, ele ouve uma pequena voz: “Cristóvão, Cristóvão!” Três vezes ele sai e não vê ninguém, e na terceira vez ele sai e vê uma criança pequena, uma criança bem pequena de pé na margem e dizendo: “Cristóvão, leve-me através do rio.” Então ele a coloca em seus ombros, atravessa o rio e, enquanto isso, o rio sobe cada vez mais alto, e a criança se torna mais pesada, mais pesada. Ele finalmente diz à criança: “Eu sinto como se estivesse carregando o mundo inteiro em meus ombros.”

E a criança diz: “Você está carregando não apenas o mundo inteiro, você está carregando o Criador do mundo.” E então Cristóvão vai embora e é martirizado e assim por diante.

E você pode ver, obviamente, que este é um conto de fadas introduzido na vida de um santo, por quaisquer razões que não sabemos, talvez existam influências pagãs, o resultado de uma imaginação muito boa. Bem, de qualquer forma, este elemento de romance entra até mesmo na vida de um santo, tornando-a em um conto de fadas totalmente inventado. E é por isso que você vê católicos e até algumas pessoas ortodoxas pintar ícones de São Cristóvão com o Menino Jesus em seu ombro, porque a palavra Christophoros significa “Portador de Cristo”, portanto eles fazem um tipo interpretação literal e inventam uma história para adequar-se a ela.

E em muitos outros casos, vemos que nas fontes Católicas Romanas, mesmo no auge da Idade Média, no século XIII, muitos desses elementos românticos adentraram. Não podemos confiar nessas fontes. E essa foi a razão pela qual os estudiosos posteriores passaram a desconfiar das fontes. Além disso, há, é claro, coisas como as lendas do Graal, que vêm de lendas celtas, lendas pagãs …

A Arte Medieval

Podemos olhar para a arte e ver algo muito interessante, porque apesar da iconografia, o estilo iconográfico nunca foi completamente desenvolvido no Ocidente. Na Itália havia uma tradição iconográfica; e eles tinham muitas igrejas em Ravena e assim por diante, que são em estilo iconográfico. Mas nessa época, o que quer que tinham na Itália começou a ser transformado.

Vemos em alguém que é considerado ainda na tradição bizantina, supostamente com um pouco de tradição — um pintor chamado Duccio que viveu cem anos depois de Francisco, no fim do século XIII. Podemos ver a partir desta pintura que Cristo parece muito sereno e calmo; é obviamente influência de Bizâncio. E já estão aí os rostos que começam a introduzir um pouco de interesse humano. Eles são psicologicamente muito bem desenhados. Mas eram muito agradáveis comparado com as crucificações sangrentas e assim por diante; é muito sereno e calmo, parece quase bizantino. Esse é Duccio, que vem antes dessa grande mudança. E você vê, olha esses rostos nos anjos, eles são pessoas; olhe para os anjos, não querubins, ainda não são decadentes, mas são pessoas que têm características psicológicas bem definidas, talvez alguém posou para a pintura. E você vê todos os tipos de interesse humano. As pessoas estão olhando, tristes e olhando ao redor. O tipo de iconografia está sendo perdido. Há algo, um tipo de novo princípio chegando.

Mas quando você chegar ao próximo pintor sobre o qual vamos falar, aquele que foi contemporâneo … bem, na verdade ao mesmo tempo, porque ele estava preservando mais o estilo mais antigo. Mas há um pintor que é o mais típico desse período chamado Giotto, que estava muito ligado a Francisco porque foi contratado para pintar a vida dele na basílica de Assis. Sobre ele, um historiador diz:

A pintura não era mais um eco da tradição, mas elevou-se imediatamente à dignidade de invenção … A arte não trabalhava mais em modelos convencionais, abstratos e ideais; seus modelos seriam as realidades da natureza … A representação da vida real deveria se tornar o objeto de toda pintura.

E, portanto, é chamada de revolução artística, e é bem apropriado que o novo santo, novo tipo de santo, já tenha um novo tipo de “ícone”, que não é mais um ícone, mas uma pintura religiosa. Falsa iconografia; o falso santo dá origem a uma falsa iconografia.

Ele adiciona muitos elementos da vida cotidiana. Este é o começo desta coisa que você vê mais tarde na pintura renascentista, onde há todos os tipos de cenas pitorescas da vida cotidiana. Você até vê uma crucificação de Cristo no coração de Bolonha ou algo parecido; é para mostrar que nós estamos … é uma combinação do atual e etc. Mas você pode ver nessas pinturas de Giotto o quanto ele está longe de Duccio. Aqui está um chamado “Lamentação de Cristo”; se você olhar para o zoom, em especial, verá que os rostos são muito …

Pe. H: Terríveis.

Pe. S: Meio que terrível e muito estranho. Ainda é uma pintura religiosa, reconhecível, não tem todos os … de mais tarde, mas já parece muito estranho, não é de todo um estilo iconográfico. E Francisco recebendo os estigmas, já é uma espécie de prelest; aqui está a visão que ele obteve diretamente de si mesmo …

Pe. H: É demoníaco.

Pe. S: Cristo no serafim, essa coisa estranha, essa coisa demoníaca, é um “ícone” de Francisco. E isso é um pouco ao mesmo tempo. Você já vê todos esses diferentes tipos de faces. Ele está obviamente tentando capturar aspectos psicológicos …

Pe. H: Terreno, terreno.

Pe. S: … aspectos terrenos dessas pessoas. Cristo é um Cristo ainda reconhecível, mas … todas as outras pessoas com essas paixões, essas …

Pe. H: Isso não é ícone.

Aluno: Há, ainda há um remanescente aqui, porque se percebe as três estrelas da Mãe de Deus, ainda um remanescente por aí.

Mas vamos mostrar em uma palestra posterior como e o que aconteceu no Renascimento quando a arte desandou completamente. Você já pode ver aqui o principal do porquê, como a arte começa a se perder. Os elementos pitorescos começam a entrar, e toda a ideia do ícone de um Santo como ele está no céu é perdida. Em vez disso, é o Santo como ele é na terra, uma figura terrena. Começa-se a entrar todos tipos de coisas terrenas. E no Renascimento nós veremos que até a arte religiosa agora se torna um veículo para uma religião completamente diferente.

A Política e o Papado

Um aspecto final é, devemos tocar muito brevemente, a esfera política. A ideia de um império bizantino foi perdida. O que é o império? O império não é algum tipo de instituição mística; é antes aquela instituição política que providencialmente permitiu a disseminação do cristianismo. E assim que o império foi batizado, tornou-se cristão, o imperador deveria proteger a religião de seu povo e dar o primeiro exemplo de vida religiosa, de modo que as instituições se tornaram cristianizadas.

Neste mundo, claro, nunca pode haver uma cristianização perfeita da sociedade, e não havia nenhum tipo de ideia romântica de … aperfeiçoar a sociedade na terra; mas sim que havia um ideal, um ideal celestial que tudo na terra deveria imitar. Mas esse ideal estava totalmente perdido no Ocidente; claro, havia as imitações políticas.

Primeiro de tudo, no século IX houve o império rival de Carlos Magno, que foi conscientemente estabelecido como um rival. O papa realmente escolheu Carlos Magno ao invés de Irene, a oriental, que era a favor dos ícones. Carlos Magno era contra os ícones e também favorecia o Filioque. Já vemos que isso é muito instável. E este império deu origem ao que foi chamado o Sacro Império Romano no Ocidente.

E Kireyevsky observa:

Temos uma Santa Rússia porque há homens santos nela … mas o santo Império Romano era santo em si mesmo, porque não havia homens santos ou santos imperadores nele. Chamava-se “santo” porque a própria instituição foi concebida como sendo santa.

E essa é uma tentativa, que se tornará muito forte depois, de santificar o mundo, no qual uma instituição terrena é concebida como algo santo.

As Cruzadas neste tempo tiveram — embora ostensivamente realizadas para expulsar os infiéis do Oriente — em seu efeito prático, a função de subjugar o Império Bizantino e fazê-lo unir-se com o Papa.

Mas a ideia política mais profunda de todos na Idade Média era a do papado. Na verdade, a monarquia universal do papa. No período imediatamente anterior ao cisma, em algum lugar entre o oitavo e o décimo século, há este falso documento, “A Doação de Constantino”, no qual Constantino supostamente deu a autoridade temporal ao papa. E como resultado disso, os papas, provavelmente com o estímulo do documento … como resultado de ver que o papa já estava se tornando uma figura política. Mas o resultado disso foi que o próprio papa é percebido como uma autoridade temporal, e como uma espécie de imperador no Ocidente, porque o império no Ocidente sempre foi muito fraco. E a principal autoridade política é realmente o papa. E temos até as teorias dos pensadores medievais de que toda a terra do mundo pertence ao papa. Ele só dá para as pessoas, como no sistema feudal. Na verdade, teoricamente, ele possui o mundo, a terra, não apenas a parte espiritual.

O clímax desse tipo de ponto de vista está no ano de jubileu de 1300. Eles estão tendo um ano de jubileu agora (1975) também em Roma. Em 1300 houve um ano de jubileu com o papa Bonifácio VIII, que se sentou no trono de Constantino, vestiu-se com uma espada, coroa e cetro e gritou: “Eu sou César. Eu sou o Imperador.” Isso não é um acidente, porque isso é uma indicação de algo extremamente profundo em todo o pensamento moderno, que é a busca de um monarca universal, que é o Anticristo.

Palestra por Pe. Serafim Rose
Traduzido por Aurora Ortodoxia

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Aurora Ortodoxia

Aurora Ortodoxia é um labor online missionário de cristãos ortodoxos brasileiros de distintas jurisdições canônicas, dedicado ao aprofundamento e iluminação daqueles que se interessam em conhecer a Fé Ortodoxa por meio da experiëncia da Santa Tradição.

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